Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 30th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”


Duetos (mais do que) improváveis

Bernardo de Brito e Cunha

ESTAMOS em Setembro e, portanto, é tempo de acabar com alguns programas e estrear outros. Em termos de finais estamos a assistir, por exemplo, aos derradeiros episódios de “Mar Salgado” aos bochechos, que acho um horror. Não bastava a acção estar a arrastar-se para além do aceitável, como também a SIC tem vindo a ensanduichar a novela que vai substituir esta entre dois fragmentos de uns 10 ou 15 minutos, um antes e outro depois. “Mar Salgado”, convém referi-lo, fez na última segunda-feira um ano de exibições o que, se excluirmos os domingos em que não ia para o ar, deve perfazer para cima de 310 episódios. É obra, convenhamos. Mesmo assim, foi uma novela que se entranhou – e se cravou aí numa média de um milhão e 500 mil espectadores – sem grandes dificuldades, porque isto de uma história que mete vilões, dois gémeos separados à nascença (não só entre si, mas da própria mãe) é de fazer chorar as pedras da calçada. Tudo acabará, suponho, no final desta semana, e em bem: os meliantes castigados e os bons a serem finalmente castigados. Porque é sempre assim.

MAS TAMBÉM houve estreias, que é época disso. Para não falar dos debates para as legislativas (e em que me parece que Passos Coelho terá levado uma banhada de António Costa – e em relação a uma das questões levantadas o jornal Público vem hoje, quarta-feira, lançar alguma luz sobre quem chamou ou não a troika) também tivemos o regresso dos Gato Fedorento – ou três quartos deles, para aqueles que forem mais explicadinhos. Não vi, neste “Isso É Tudo Muito Bonito, Mas…” nada de muito diferente do programa de há uns anos na SIC “Os Gato Fedorento Esmiúçam os Sufrágios”, embora me parecesse que este último se tenha revelado com mais graça, talvez por terem mais tempo e as entrevistas serem mais longas. De qualquer forma, parece que a marca Gato Fedorento (ou, se quisermos ser mais precisos, Ricardo Araújo Pereira, que é quase como uma pessoa da família com tanta publicidade que faz) tem um magnetismo especial. O programa da SIC era um espaço autónomo, o que não acontece com este da TVI, que surge inserido no “Jornal das 8”. E não é que, apesar disso, o “Jornal das 8”, teve 1,1 milhões de telespectadores, enquanto o programa “Isso É Tudo Muito Bonito, Mas…” alcançou 1,4 milhões de espectadores durante os 20 minutos em que esteve no ar. Nem mesmo com esta ajuda o “Jornal das 8” conseguiu bater o “Jornal da Noite” da SIC. E, para que conste, programa mais visto do dia foi “Mar Salgado”, da SIC, com 32,2% de share e 1,6 milhões de telespectadores.

TAMBÉM esta segunda-feira estreou “Cristina”, antes do “Jornal das 8” que, feitas as contas, se ficou pelo 12º lugar entre os programas mais vistos do dia com um share de audiência 20,2%, logo atrás de “O Preço Certo”, da RTP1, com 21,3%. O que é que me irrita nisto? Em primeiro lugar, que o programa de meia-hora tenha exactamente o nome da revista (e logótipo da revista com o mesmo nome e proprietária…) e depois que Cristina Ferreira, desde que foi nomeada directora de entretenimento ou de programas não informativos, esteja a estender os seus tentáculos por tudo o que é TVI – e, aparentemente, sem que a TVI dê por isso ou, em alternativa, não se preocupe. E lá vai ela publicitando revistas, sapatos e perfumes, sempre com o agréement da estação ou, pelo menos, o seu beneplácito. Daqui por uns tempos ainda a vamos ver com carteira de jornalista.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Em termos de televisão, tudo se passa muito rapidamente: as séries de programas são concebidas para 13 semanas (número estranho? Não: apenas o correspondente a três meses) e depois logo se vê se se avança para uma nova série. Daí que um programa chegar a ter anos de vida é uma coisa cada vez mais rara. Por isso, quando a Praça da Alegria atingiu dez anos de vida, o fenómeno não pode ser encarado de ânimo leve. Ainda mais porque não se trata de uma série, com um episódio por semana, mas sim um programa diário, de segunda a sexta, e feito em directo. É obra. Daí que tenha sido merecida a festa de aniversário, transmitida pela RTP na noite de domingo e que contou com a presença dos quatro apresentadores. Não deles: porque num gesto bonito foi evocada a passagem de Manuel Luís Goucha pelo programa. Estas coisas caem bem.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4086/87 de 18 de Setembro de 2015

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