Informação para que te quero?
Bernardo de Brito e Cunha
Bem sei que é Verão e que, como costuma ser hábito, as notícias da política não abundam. No Verão, como sempre, ficamos desanimados com as notícias arrasadoras dos incêndios, dos ataques terroristas, das pequenas-grandes catástrofes naturais que nos surgem um pouco de todo o lado, bem como com os dislates, despropósitos e despautérios do novo ocupante da Casa Branca, em Washington D.C., tudo com “d” como a inicial do seu nome próprio.
Mas esta seca de notícias (e mesmo no seu sentido mais real, que a falta de água já se vai fazendo sentir em alguns lugares) não justifica que um serviço noticioso da hora do jantar seja rigorosamente igual ao que já passou à hora do almoço, salvo uma ou outra pequena actualização da direcção que os incêndios tomaram, ou do número de vítimas de uma catástrofe/atentado. Todos os canais de televisão sabem que o mês de Agosto é sempre isto e, no entanto, insistem em manter o formato (e duração) dos seus serviços noticiosos, mesmo quando sabemos todos que os canais generalistas – é deles que falo, naturalmente – têm os seus próprios canais exclusivamente (mais ou menos…) dedicados às notícias. Mas quando precisamos deles…
Às vezes, quando esses canais nos são necessários, verificamos que se demitiram dessas funções. Tivemos um exemplo disso no último domingo, quando uma confusão no aeroporto de Lisboa fez com que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras isolasse a área internacional do principal aeródromo do país e fechasse o acesso aéreo a Lisboa, provocando diversos atrasos em aviões que se preparavam para aterrar. Porquê? A pergunta despertaria certamente interesse, quanto mais não fosse por causa do recente atentado em Barcelona. Tanto a SIC Notícias, como a TVI24 e ainda a RTP3 transmitiam, nessa altura, programas de comentários à jornada futebolística do fim-de-semana – e registem convenientemente que não escrevi “desportiva” mas sim “futebolística”. Ora, com (a digna) excepção da RTP3, que incluiu a notícia num rodapé em contínuo, nenhuma das outras prestou atenção ao acontecimento, tanto quanto pude confirmar. É verdade que o podem ter feito quando eu não estava nelas sintonizado – mas quem me pode culpar por ter voltado para aquela que me dava alguma indicação? Ninguém, julgo. E foi pelo rodapé da RTP3 que fiquei a saber da balbúrdia que o desembarque de um avião proveniente de Dakar provocara no aeroporto da Portela ou Humberto Delgado, como passou a ser designado.
Escrevi acima que os canais genéricos insistem em manter o formato (e duração) dos seus serviços noticiosos, o que é mais verdade em relação à duração do que ao formato. Na realidade, a TVI (por exemplo) recorre a pequenas artimanhas para encher alguns chouriços: e esta expressão popular é particularmente feliz quando aplicada ao trabalho (árduo) do jornalista Paulo Salvador que, acompanhado por um operador de câmara, se tem fatigado numa digressão a fazer uma série de reportagens sobre restaurantes por esse país fora, sem esquecer os arquipélagos da Madeira e dos Açores. Para além da inveja que nos provoca ao vê-lo a comer cracas ou qualquer dos (aparentemente) deliciosos e variados pratos que lhe são colocados à frente (ele costuma, aliás, dizer que quer “provar de tudo”), a quem serve isto? Sabendo que muito poucos terão possibilidade de ir aos Açores comer cracas (sobretudo a um euro e meio cada bico…) ou um gigantesco bife de uma raça de vacas protegidas, só vejo dois beneficiários: o estômago de Paulo Salvador (o operador de câmara comerá depois, creio) e os restaurantes visitados, através desta publicidade nada encapotada.
Outro dos chouriços da TVI passa à noite, ao domingo, com direito a repetição (eu não dizia?) ao almoço do dia seguinte. Trata-se de uma espécie de crónica de Victor Moura-Pinto, intitulada “Seis por Meia-Dúzia”, e que pretenderia ser uma crónica de humor – mas infelizmente não consegue. É um espaço em que cola algumas imagens de diversas reportagens (sobre o Primeiro-Ministro, Passos Coelho, o Presidente da República e outras figuras públicas) e vai fazendo comentários que tentam ligar as coisas. Há duas semanas, creio, o alvo era Marcelo Rebelo de Sousa: e não é que Moura-Pinto o tratava (carinhosamente?) por… “Celinho”? Como é, Vitinho? Andaste com o Professor na escola, foi?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Do que gostei menos [no programa “O Sentido do Gosto”] foi do ar um pouco empertigado de Bento dos Santos, como quem diz “eu é que sei destas coisas”. É verdade que deve mesmo saber: as dicas que deixou, embora não as tenha testado, pareceram-me excelentes, mas era escusado o ar de superioridade, fazendo-me recordar imediatamente o ar simples de João Carlos Silva e o seu “Na Roça com os Tachos”. De qualquer forma, refira-se que “O Sentido do Gosto” conseguiu o quinto lugar no top das audiências de domingo, atrás das novelas da TVI, é certo, mas à frente de outros apresentadores e programas com maiores responsabilidades.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição 4177 de 25-8-2017

