Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 2nd 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O Kim-de-Alvalade-Norte

Bernardo de Brito e Cunha

Foi curiosa a Assembleia Geral do Sporting que o seu presidente tinha convocado para alteração de estatutos e regulamento disciplinar. E foi curiosa porque, de facto, essa Assembleia Geral foi convocada por Bruno de Carvalho e foi ele quem a abriu – ou, para se ser mais exacto, foi ele quem abriu as hostilidades. A fasquia colocada por Bruno de Carvalho era alta, mas os sócios do Sporting cobriram a aposta e subiram a parada, reforçando a legitimidade de Bruno de Carvalho como líder leonino através de uma aprovação por números generosos da alteração dos estatutos, do regulamento disciplinar e da continuidade dos actuais órgãos sociais. Cerca de 6000 sócios, divididos entre o Pavilhão João Rocha e o Multiusos de Alvalade, aprovaram em assembleia geral os novos estatutos com 87,3% dos votos e o regulamento disciplinar por 87,8%, bem acima dos 75% exigidos por “lei”, e ultrapassaram os 75% pedidos por Bruno de Carvalho para a sua continuidade, com 89,55%, um nível de aprovação superior ao que tinha tido nas eleições de Março do ano passado (86%).

Com a oposição interna reduzida apenas a pouco mais de 10% dos votos, Bruno de Carvalho tinha tudo para sair do Pavilhão João Rocha com o respeito e admiração de todos, inclusive da comunicação social, tanto mais que toda a gente achara arriscada a meta dos 75% como percentagem mínima nas votações pedidas pelo presidente para continuar no cargo.

Mas foi neste momento e neste contexto que Bruno de Carvalho, em vez de ter feito um discurso de vitória, de unidade e de força para o país desportivo, não resistiu à tentação de ceder a palavra a Kim-de-Alvalade-Norte e nomear os meios de comunicação como os novos inimigos do Sporting – como fazia Pinto da Costa há 30 anos, quando se procurava afirmar no FC Porto – recomendando este “novo” orador que os sportinguistas deixassem de comprar jornais desportivos (e incluiu o Correio da Manhã), de ouvir rádios e de ver televisões, devendo passar a ser informados apenas pelos meios de comunicação do clube, jornal e canal televisivo. Recomendou ainda que os comentadores sportinguistas dos diversos programas desportivos de televisão abandonassem de imediato os seus lugares. Ora, ao ter seguido este caminho perigoso, este Kim-de-Alvalade-Norte deitou fora tudo aquilo que tinha alcançado de bom numa assembleia geral que tinha tudo para ser um sucesso.

De resto, este belicista Kim teve duas respostas (no espaço de 24 horas) ao seu discurso inflamatório: logo à saída do pavilhão, os sócios sportinguistas atacaram os jornalistas que esperavam cá fora; e no dia seguinte, domingo, dia de comentários desportivos, todos os representantes do Sporting nesses programas – Manuel Fernandes (na SIC Notícias), Augusto Inácio (na RTP3), José de Pina (na TVI24) e Octávio Machado (na CM TV) – se apresentaram nos seus postos…

Mas também na RTP1 as coisas não estiveram pacíficas no domingo, na primeira eliminatória do Festival da Canção, com erros na contagem dos votos do público… Isto daria origem a um comunicado da RTP, na segunda-feira de manhã e em que se podia ler: “No decurso do processo de auditoria interna, que ocorreu após a emissão do programa em directo, foi detectado que a votação final divulgada estava incorrecta. Identificado o erro na transcrição dos pontos do televoto (votos do público), a RTP actuou prontamente, no sentido de esclarecer de forma transparente o sucedido, junto dos compositores e intérpretes envolvidos.” Com isto, obviamente, houve mudança nas canções que foram escolhidas: e as canções de Fernando Tordo e de Jorge Palma passaram de excluídas a apuradas para a final. A de José Cid é que não teve tanta sorte…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Ainda o programa de Maria Elisa não tinha começado e já chovia no concelho de Sintra – mas o pior estava para chegar, madrugada dentro, infelizmente com vítimas mortais, como sempre. E fez bem Maria Elisa Domingues em ter começado por chamar os autores da canção que dá nome ao programa: nem toda a gente tem essa preocupação, sobretudo quando esse título foi (ligeiramente) alterado. Bem sei que lhe falta apenas o “E” inicial, mas a justificação caiu bem. E fez igualmente bem, de uma maneira geral, em ter escolhido como convidados quem escolheu. Maria Elisa, que não é vidente, ignorava obviamente a carga de água que se abateria sobre a capital e concelhos limítrofes. Assim, fez um programa que se baseava nas três últimas grandes cheias de 1967, 1983 e 1987 – porque ainda não poderia falar da de 2008.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 23 de Fevereiro de 2018

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