Ah, Húbris, essa bela palavra grega!
Bernardo de Brito e Cunha
Uma pessoa levanta-se calmamente, liga um canal de notícias enquanto toma o seu cafezinho e, de repente, fica a saber que o director-geral da Polícia Judiciária Militar, coronel Luís Vieira, fora detido naquela terça-feira de manhã no âmbito da investigação ao aparecimento do material de guerra que estava guardado na base militar de Tancos, cujo desaparecimento se tornou público em finais de Junho do ano passado. Além deste responsável foram detidos pelo menos mais seis pessoas, incluindo outros elementos da PJ Militar, da GNR e um suspeito civil, para os quais tinham sido emitidos mandados. O porta-voz da GNR, Hélder Barros, confirmou a detenção de três militares do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé, incluindo o chefe daquela unidade. O que só vim a perceber mais tarde foi o nome que foi dado à operação: Operação Húbris. Já lá vamos.
Recorde-se que em Outubro do ano passado, quando a Polícia Judiciária Militar anunciou, em comunicado, ter recuperado a maioria do material de guerra que desaparecera de Tancos, aquela polícia indicara contar com a colaboração do núcleo de investigação criminal da GNR de Loulé. A PJ, que liderava a equipa de investigação ao alegado roubo, foi avisada com umas horas de atraso do aparecimento das armas, o que levantou suspeitas. Foi igualmente considerado estranho o facto de ter estado envolvida naquela operação a GNR de Loulé, sedeada a mais de 300 quilómetros da Chamusca, onde foi encontrado o armamento…
Num comunicado conjunto, a Procuradoria-Geral da República e a PJ confirmaram que, no âmbito da Operação Húbris (para os antigos gregos, “húbris” definia uma conduta desmedida que era considerada um desafio aos deuses e que acarretava a ruína de quem assim agia: não deixa de ser curioso que se tenha aplicado esta palavra para deter oficiais superiores), foram detidos elementos da PJ Militar, da GNR e um outro suspeito, sem referirem nomes, nem cargos.
A meio da tarde, ao sabor de mais um cafezinho, já havia debates, mesas redondas que por acaso eram quadradas, e toda a gente falava que o roubo das armas, o seu aparecimento e a Operação de terça-feira tinham muito a ver com uma “guerra de polícias”, ao mesmo tempo que se pedia a demissão do ministro – mas isso, caramba, pede-se sempre, não é? Aparentemente, a tal guerra deriva do facto de o roubo das armas ter sido entregue à Polícia Judiciária, civil, e a outra, a militar, ter ficado a roer-se de raiva.
Só que, já depois de jantado e cafezinho tomado, sou confrontado com mais notícias: a Polícia Judiciária já tinha identificado e detido o alegado autor do roubo de armas do paiol de Tancos. Trata-se, ao que parece, de um homem de cerca de 45 anos, ex-militar, referenciado pelas polícias como traficante de droga e de armas e terá contado com a cumplicidade quer de elementos da GNR, quer da Polícia Judiciária Militar para devolver o material furtado.
Essa era a convicção da Polícia Judiciária, que naquela terça-feira montara uma operação de grande envergadura para deter quatro membros da sua congénere militar, três elementos da GNR e ainda o autor do furto, referenciado pelas autoridades como negociante de armas e estupefacientes. Foi igualmente pedida a detenção de um antigo porta-voz da PJ Militar, que se encontra actualmente numa missão na República Centro Africana.
Como ex-militar que é – embora nunca tivesse pertencido aos quadros das Forças Armadas, dizem: então como é que é ex? –, o suspeito do roubo do paiol terá contado com informações privilegiadas por parte de ex-colegas para saber como tirar o material de Tancos. Não contava, porém, com a repercussão que o caso ganhou a nível nacional e assustou-se. Queria devolver as granadas, os explosivos e tudo o resto – mas em segredo. Não queria era que lhe arranjassem problemas.
Terá resolvido então contactar um ex-companheiro de armas (ele que é um ex-militar sem ter pertencido… adiante), um soldado do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé, que por sua vez falou com o seu superior hierárquico, um sargento. Este conheceria alguém na Judiciária Militar do Porto, e o plano ganhou forma: guardas e inspectores da PJ Militar ficavam com os louros da descoberta do material, mas em troca disso encobriam o traficante… Não é lindo? Se isto não é a guerra do Solnado dos nossos tempos, vou ali e já venho. E tomar outro cafezinho, claro.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«O recente caso do leite contaminado na China, que não tem largado todos os noticiários, e bem, porque as crianças chinesas não param de morrer, tem duas vertentes que me parecem imediatas. O leite contaminado parece ser, por um lado, o reverso da medalha que caiu no colo do ocidente e que lhe permite contrabalançar o bem que teve de dizer da República Popular da China, pela organização brilhante dos últimos Jogos Olímpicos. A verdade, no entanto, e esse facto foi dito en passant num noticiário português, é que o ministro responsável pela área foi demitido, fosse ele ou não responsável directo pela falsificação do leite: e isso, convenhamos, é coisa que nós não ve(re)mos por cá.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4227 de 28 setembro de 2018

