Quando Beatriz Batarda renasceu para mim
Bernardo de Brito e Cunha
Vamos ver se explico isto sem parecer demasiado ignorante e inculto, o que daria mau nome a este jornal. Sempre me afastou de Beatriz Batarda o seu ar trágico – ou aquilo que eu pensava ser o seu ar trágico – e que me levou a pensar, muitas vezes, coisas do género: “Mas que raio de coisa vêem nela todos os realizadores e encenadores?”. E de repente surge-me na RTP2 uma série com ela, de seu nome “Sara”. Pronto, pensei eu, lá vem o choradinho… Mas como me tornei um cliente assíduo da 2, fiquei para ver. E fiz bem. De resto, a 2 tem sido um verdadeiro manancial de séries de grande qualidade e de nacionalidades que nunca pensei ver: um filme finlandês, uma série norueguesa, uma dinamarquesa, enfim, realidades completamente diferentes da nossa. E entre as dramáticas e as policiais, já estou como diz a minha Ana: são bem melhores que a maioria das séries americanas. Mas voltemos a “Sara” e a Beatriz Batarda.
Uma actriz de cinema e teatro, conhecida pelo seu talento para o drama, é subitamente atacada pela “síndrome do olho seco”. Isto é, deixa de conseguir chorar, o que provoca o desespero da dupla de realizadores que a dirige (uma espécie de Dupond e Dupont) e dela própria. E quando ouço “Sara” a dizer que está farta de ser trágica e de ser a menina querida dos realizadores porque chorava quando queria, voltei a pensar: “Caramba, é mesmo por isto que não gosto de Beatriz Batarda!”. E aí surgiu no ecrã uma nova BB para mim e comecei a olhar para ela (e para a série) com outros olhos. E ganhou um novo estatuto quando decide abandonar o filme e manda os realizadores para um sítio que não posso repetir aqui, e muito menos os gestos de dedos que lhes faz…
Decide então mudar de registo, a conselho do seu agente, um meio alucinado Albano Jerónimo, acabando por aceitar um papel numa telenovela e fazer televisão pela primeira vez. E é aqui que a realidade se confunde com a ficção: “Sara” marca a estreia da actriz Beatriz Batarda, conhecida pelos seus papéis dramáticos, na televisão e no registo de comédia. Sara, no meio desta confusão da sua carreira, ainda tem de tratar do pai (António Durães) que na sua cadeira de rodas passa o tempo a matraquear furiosamente numa máquina de escrever – e aquilo que “escreve” foi, na realidade, escrito por Valter Hugo Mãe… Mas também é a estreia televisiva do realizador Marco Martins, autor de dramas como “São Jorge” e “Alice”. E o grande culpado de tudo isto é Bruno Nogueira: foi ele que teve a ideia para esta série, pensada especialmente para Beatriz Batarda, que depois foi desenvolvida com a ajuda de Ricardo Adolfo e do próprio Marco Martins.
Rodeada por um conjunto de personagens engraçadíssimas (salientemos o caso de Rita Blanco, que faz de amiga lésbica; Albano Jerónimo, o tal manager alucinado; Inês Aires Pereira, a apresentadora de televisão que quer aprender a ser actriz; ou Bruno Nogueira, o excêntrico terapeuta orientalista. E, no meio disto tudo, não há figura mais hilariante do que Nuno Lopes, a fazer de actor de telenovela), Sara começa então a experimentar o mundo das telenovelas, das redes sociais, das sessões fotográficas para revistas cor-de-rosa e passa a frequentar com regularidade um motivador pessoal (Bruno Nogueira), uma espécie de life coach de emoções, numa busca por algo diferente que a faça sentir-se mais próxima do grande público. Ao longo de oito episódios, acompanhamos a tentativa de adaptação de Sara a um estilo de vida de fama rápida e de promiscuidade, as frustrações, dúvidas e o drama de uma actriz de cinema cansada de pensar demais. E de chorar.
Fiquei contente: porque ganhei uma actriz e descobri, na 2, mais uma série muito divertida.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Impressionou-me a apresentação da série “Liberdade 21”, que estreou na RTP no último sábado. Tanto, que me levou a não perder a sua estreia. “Liberdade 21”, para quem não viu, significa que uma empresa de advogados está instalada na Avenida da Liberdade, no número 21. Confesso que não sei a que prédio corresponde esse número, mas isso também não importa. O que importa é que a série é surpreendentemente boa, surpreendentemente credível, surpreendentemente bem representada e surpreendentemente bem dirigida. Eu sei: são “surpreendentementes” a mais para uma série portuguesa – mas alguma vez havia de ser.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4231 de 26 de outubro de 2018

