Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 30th 2026

AMARGO PINGO DOCE NUM PAÍS EM SALDO

AMARGO PINGO DOCE NUM PAÍS EM SALDO

José Jorge Letria

Aquilo que podemos designar por “caso Pingo Doce”não foi um mero episódio do folclore político-social. Foi e continua a ser muito mais do que isso. Tem, aliás, várias vertentes que merecem análise objectiva. Existe uma vertente económica, outra política, outra psicológica e outra sociológica.
Vale a pena determo-nos em cada uma delas. Do ponto de vista económico, desde a ministra da Agricultura até às confederações sindicais, passando pela Confederação do Comércio e pela própria ASAE já foram tomadas posições claras, apontando algumas delas para uma investigação mais prolongada e detalhada. A questão central prende-se com a relação equilibrada e justa que deve existir entre produtores e distribuidores/vendedores e que foi ferida por esta mega operação “promocional”sobre a qual está ainda muito por dizer. As palavras da ministra Assunção Cristas sobre o assunto devem ser ouvidas e lidas com atenção.
No plano político, têm razão os que afirmaram que nada teve de inocente a escolha do 1º de Maio para a realização desta operação, já que o objectivo foi esvaziar o significado da data, através da mobilização de dezenas de milhares de consumidores para as lojas do grupo económico, o que se traduziu também na subalternização noticiosa das manifestações comemorativas do Dia do Trabalhador, que têm uma história indissociável da história da democracia desde 25 de Abril de 1974. Ninguém acredita que os responsáveis por este grupo económico estavam desatentos quando escolheram a data, do mesmo modo que é quase impossível acreditar que o poderoso patrão do grupo foi apanhado de surpresa. A ser verdadeira esta versão, alguma coisa deve andar mal na sua estrutura empresarial para que uma mega-operação desta índole lhe tenha passado ao lado.
Mas, não menos preocupante é o aspecto que se prende com a psicologia colectiva, já que os muitos milhares de pessoas que encheram de manhã à noite os hipermercados do grupo deixaram vir à superfície aspectos comportamentais preocupantes. Inebriadas pelos descontos, muitas pessoas revelaram um grau de irracionalidade, de ganância e até de bestialidade que muito se poderá agravar se o país avançar para situações de maior tensão e até de ruptura social. É neste momentos que se percebe até que ponto é ilusória a ideia de que, em Portugal, somos todos pacíficos, dialogantes e solidários.
Resta ainda a vertente sociológica. Com efeito, o sobressalto social que esta operação de apelo ao consumo provocou constitui um indicador que merece dos cientistas sociais uma análise série e profunda, que foi meramente esboçada por alguns analistas dispersos. Nesse aspecto, muito interessante seria ouvir a opinião do sociólogo António Barreto, que preside à fundação criada por Alexandre Soares dos Santos, o patrão da Jerónimo Martins, e que costuma ser muito expedito a opinar sobre outros fenómenos sociais e políticos, tendo neste caso, e até ao momento, optado pelo mais absoluto silêncio.
Há quem diga, e com razão, que graças a esta mega-operação de venda retalhista com descontos de 50 por cento a Jerónimo Martins de Soares dos Santos conseguiu uma gigantesca campanha de publicidade que lhe irá dar substanciais dividendos nos próximos tempos. Mas também é verdade que a reprovação política, social e ética vai levar um número significativo de pessoas a deixarem de ser clientes daquela rede de hipermercados. É uma forma de protesto absolutamente legítima. Quem com ferro mata…
Este caso, com as suas diversas vertentes, é muito mais importante por aquilo que revela sobre este Portugal em crise e sobre a falta de regras que pode vir a caracterizar o seu futuro próximo do que propriamente sobre o acto económico que foi praticado.
Resta-nos esperar, introduzindo aqui uma nota de humor negro, que uma grande agência funerária não se lembre de escolher um feriado dos que ainda restam para fazer promoções similares, o que forçaria muita gente a finar-se nesse dia para poder beneficiar dos descontos, e que os responsáveis pelo governo da nação não decidam saldar o que ainda sobra da nossa parca soberania com descontos de 50 por cento. Pobre Portugal cada vez mais pobre !

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3935 de 11 de Maio de 2012

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