Uma semana incrível, exceto Capucho
Bernardo de Brito e Cunha
EU ORGULHO-ME de ser uma pessoa que consegue admirar personalidades de outras zonas partidárias que não a minha. Essa admiração, hélàs, (como interjeicionaria Eça de Queiroz) acontece muito poucas vezes: talvez porque as personalidades de outras zonas partidárias não se manifestam a meu favor – o que é pena. Não foi o caso do que aconteceu na passada segunda-feira, no programa “Prós e Contras”. É certo que Jerónimo de Sousa manteve as coisas que vem dizendo há umas dezenas de anos, seja como secretário do partido, ou nos tempos de aprendiz: mas, pergunto, o que é isso comparado com António Capucho, membro do PSD que (confessou) não entregou o seu cartão do partido, a dizer mal do próprio PSD? É uma ninharia, uma coisa comezinha. Jerónimo diz as coisas de sempre, Capucho diz as coisas que todos queríamos ter dito – só que não temos voz activa. (Sabiam que a lei eleitoral, na Grécia, concede 50 lugares extra ao vencedor das eleições? Ainda não chegámos a isso, mas pouco falta…) E, voltando ao tema, que disse Capucho? Por exemplo, que não é possível um governo tirar o 13.º e 14.º mês de subsídio, dizer que serão retomados dois anos depois, depois cinco e às prestações. Que não há pessoa que possa organizar a sua vida com este esquema de indefinição. Óbvio. Só o governo é que não percebeu isto.
EU NÃO PERCEBO as linhas direcionais do “Telejornal” – e com isto, não quero dizer que tenha alguma coisa contra o serviço público, bem antes pelo contrário. E não entendo que, no domingo passado, a notícia de abertura tenha sido a do FC Porto campeão – o que já acontecera uma semana antes, mercê do empate do Benfica. Lembremo-nos que domingo era dia de eleições em França e na Grécia: mas o mais importante era o FCP campeão? Ora tenham dó! José Rodrigues dos Santos, que acabou de ser reconhecido como “jornalista mais credível” ou coisa que o valha, não tem qualquer pejo em fazer coisas destas. E não é que um ou dois dias depois, em plena crise grega para formar governo, não é, dizia, que lá encontra um espaço para falar dos sapatos de Christian Louboutin? Isto não tem um cheiro a publicidade? E não há uma demarcação clara entre jornalismo e publicitários? Há, que eu sei: mas ninguém se parece ralar – e até lhe dão prémios…
TENHO ACHADO muita graça ao crescendo de epítetos com que Pedro Granger brinda os concorrentes de “O Elo Mais Fraco”: ora eles são os neurónios infelizes, como logo passam a ser a borbulha que é preciso espremer. E a coisa tomou tais foros – que não me lembro que tenha tomado nas versões anteriores – que o próprio Nilton, num dos seus “Cinco para a Meia-Noite” se foi meter com ele ao camarim: e acabou por ser (e muito bem feito) considerado o elo mais fraco… adeus! Pedro Granger tem mostrado um talento para este programa que nunca lhe achei possível: e as predecessoras estão as milhas do seu ar blasé, do ar displicente com que trata os concorrentes. Garanto que vejo o programa só para ouvir os seus comentários. Porque há ali concorrentes qu eu não percebo como é que foram admitidos, tal o grau de burrice que evidenciam. Que é dos nervos, diz a maior parte deles: não pode ser. Como aquele a quem perguntaram como se chamou Jacqueline Kennedy depois de ter casado com Aristóteles Onassis e que respondeu, com a maior das canduras, “Maria Callas”…
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«Só que as audiências de um programa não são tudo nesta vida, nem mesmo para um canal de televisão. Há outras coisas que deveriam ser levadas em linha de conta e que, infeliz e tristemente, não o são. Este programa, se não está mal perguntar, serve exactamente para quê e através de que meios? (…)É que esta cena, muitas vezes orquestrada (e nem lá muito bem, valha a verdade) foi coisa que nós já vimos, num outro programa, e que se chamava “Perdoa-me”. Foi há um par de anos e ali mesmo, na mesmíssima SIC. Os velhos hábitos não se perdem. Grave, é que no programa Gisela e Sandra tenham chegado a extremos (de linguagem bem vernácula e também de cenas próximas do pugilato) e que essas cenas tenham sido transmitidas, em versão suave pouco depois das nove da noite, e em versão “integral” poucos minutos depois da meia-noite. Em sinal aberto. Porque hoje em dia, desde que se possa, tudo se transmite em sinal aberto. Porque a democracia é uma coisa lindíssima. E é, de facto: desde que isso implique bom senso da parte de quem põe no ar (rádio ou televisão) o que quer que seja. Não me parece ser bem este o caso. Porque este programa é degradante da condição humana.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 15 da edição n.º 3935 de 11 de Maio de 2012

