Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

UM REGIME GRAVEMENTE DOENTE NÃO SE TRATA COM ASPIRINAS

UM REGIME GRAVEMENTE DOENTE
NÃO SE TRATA COM ASPIRINAS


José Jorge Letria

O regime está doente e a crise veio colocar em evidência essa enfermidade estrutural que está a minar, talvez irremediavelmente, a confiança dos cidadãos, a estabilidade da vida democrática e a capacidade regeneradora da cidadania. Todos o sentem, mas poucos têm coragem para o afirmar.
O recente escândalo que envolve a estrutura dos serviços de informação e uma das suas figuras nevrálgicas, agora ao serviço dos interesses privados, é apenas um dos sintomas alarmantes desta doença que atinge os pilares do próprio Estado e que cria a ilusão noutros sectores e agentes de que podem moralizar, julgar e até salvar o regime.
O regime construído no pós-25 de Abril terá de ser salvo, não por figuras messiânicas, por mezinhas de feira, pela tropa de choque dos comentadores e analistas desta república de opinião publicada e não de opinião pública, mas sim pelos próprios cidadãos e pela capacidade que tiverem de fazer prevalecer a sua vontade nos momentos próprios e das formas constitucionalmente previstas. É certo que, durante mais de duas décadas, foram anestesiados e até embrutecidos por muitas vias, sendo uma delas o modelo de entretenimento televisivo que foi escolhido e imposto pelos dois canais privados e um público de televisão, inundando as casas e os espíritos, em nome da guerra de audiências, com subprodutos infames que reproduziram a pior estirpe dos “reality shows” importados dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Pode parecer coisa de somenos, mas não é. Foi esse modelo de televisão que tornou hegemónica a ideia de que a fama injustificada e o dinheiro fácil são a razão de ser das nossas vidas, ainda que, para serem conquistados, as pessoas tenham que se despir e humilhar perante as câmaras, renunciando aos princípios básicos em que deve assentar a sua dignidade. Nesse sentido, este modelo de televisão comercial correspondeu a um projecto ideológico que alienou e estupidificou, corrompendo valores e princípios. Claro que se poderá sempre dizer que, num país livre, cada um só come do que gosta e só vê o que quer, mas a verdade é que, quem não tem mais nada para consumir, devora o que lhe põem à frente.
Enquanto isto, a política foi sendo feita por muita gente séria, exigente e com espírito de serviço público, mas também por muitos oportunistas que viram nela uma forma relativamente rápida de ganhar estatuto, influência, poder e, obviamente, riqueza. Foram eles que descredibilizaram a política, o Estado e a democracia, criando teias de interesses onde deviam ter imperado os princípios e as regras em vez das conveniências e da ganância sem limites.
Cada leitor desta crónica não terá dificuldade em lembrar-se de pessoas para quem a política democrática se tornou a porta aberta para tudo aquilo que de outro modo não teriam alcançado por manifesta falta de mérito, de seriedade e de competência. Mas a verdade é que triunfaram e nem sequer fazem parte do núcleo dos responsáveis principais. Houve quem começasse no poder local e depois passasse para os gabinetes ministeriais e depois, para não perder estatuto e fonte de receita, passasse de uma maioria política para outra, sempre ao serviço dos seus próprios interesses e conveniências. É uma longa e triste história que, infelizmente, teve versões muito semelhantes em países como a Espanha ou a Grécia, que, tal como Portugal, passaram de ditaduras para a legítima vivência democrática. Alguns responsáveis foram julgados, condenados e presos, mas muitos outros ficaram à solta e nem sequer foram indiciados.
Depois vieram as empresas municipais, as parcerias público-privadas, os ministros que se tornaram presidentes de administrações das empresas sobre as quais tomaram decisões enquanto eram tutela política. Depois houve os bancos criados com o aval dos directórios políticos que nos vigarizaram e se transformaram em vergonhosos casos de polícia. Depois houve deputados e presidentes de câmara que se converteram em gritantes casos de corrupção e outras formas de ilegalidade. Depois houve espiões a devassarem a vida privada de pessoas incómodas para a manobra político-empresarial dos poderes que passaram ou já estavam a servir. E assim se foi erguendo o edifício assustador e intimidante da vergonha nacional. Depois houve a lentidão da justiça, enredada na imensa teia dos truques processuais. Depois houve tudo o mais que hoje nos atormenta e enfraquece.
E agora, Portugal, que esperança te pode restar? Como não acredito em soluções fora do quadro democrático, espero e desejo que a República tenha capacidade de se regenerar, fazendo prevalecer a ética republicana, que inclui os princípios irrenunciáveis da transparência, do rigor e do serviço público. Entretanto, os protagonistas continuam a ser os mesmos e dificilmente se pode acreditar que sejam eles os agentes da mudança. O regime está gravemente doente, minado, em sofrimento e é preciso não desistir nem acender velas, porque o que vier a ser feito terá de ser obra humana, limpa e credível. O tempo dos paliativos está esgotado, porque enfermidades como esta não se tratam com aspirinas nem com anti-inflamatórios potentes, sejam eles genéricos ou de marca.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3939 de 8 de Junho de 2012

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