Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 30th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Mundo de aventuras

Bernardo de Brito e Cunha

AH, ANTES que me esqueça! Aí temos de volta a famigerada “Casa dos Segredos”, já em terceira edição, sempre pela mão casamenteira (e tantas vezes brejeira) de Teresa Guilherme. Como diria o “Engenhocas” do filme “O Pátio das Cantigas”, “Lá vem a estupidez!” É que os concorrentes, como se sabe, são escolhidos a dedo – e infelizmente na proporção inversa do seu QI. Ali se reúnem, estranhamente, casos e exemplares sui generis da raça humana, a maioria dos quais de muito baixa extração. Elas, aparentemente bonitinhas e até fisicamente atraentes têm, na maior parte dos casos, uma ignorância que é de estarrecer. São jovens, dir-se-á, a educação hoje em dia já não é o que era no nosso tempo, etc, etc. Mas eu pasmo que haja um canal do cabo que se dedique a transmitir, 24 horas por dia, a imbecilidade em direto. E, caramba!, consta-me que têm clientes!!!
Fujo daquilo como Passos Coelho do povo que governa: mas às vezes, como também acontece ao primeiro-ministro, lá sou apanhado de surpresa, mesmo que seja apenas por uma autopromoção da estação. E fico em franja com aquela coleção de disparates.

A MIM, o que me preocupa em “Top Chef”, novamente concurso da (ainda) televisão pública, é que não entendo a sua utilidade. Numa altura de fome já muito espalhada pelo país (e tantas vezes já nem sequer escondida pela vergonha) a RTP1 presenteia-nos com a chamada “cozinha de autor”. Onde é que isto nos conduz, em termos práticos? Aquilo ensina-nos a fazer uma refeiçãozinha barata para toda a família? Negativo: aquilo ensina-nos (se é que ensina…) a fazer, nas palavras de um chef que conheci, “porções obscenamente pequenas” – e seria interessante saber a quanto sai cada uma delas…. No entanto, e isto baralha-me ainda mais, o patrocinador do programa é um hipermercado que, noutros locais, nos diz como fazer refeições baratas. É a velha história de uma mão lava a outra e as duas lavam a cara?

A ATIVIDADE EDITORIAL de Jesus Cristo está em grande, a avaliar pelos anúncios que vejo na televisão. Ele é não só a criança que foi para o Céu e voltou para contar como é (e em duas edições: uma para adultos e outra, um pouco mais soft, para crianças, com desenhos e tudo), mas também a missionária Sarah Young, que julgo ser australiana, que começou a procurar Jesus através da escrita. Todos os dias, na companhia do seu diário, tentava ouvi-Lo e transpor para o papel as suas palavras.

OS CAMINHOS do Senhor, como se sabe, são insondáveis. E é bom verificar que uma pessoa com mais de dois mil anos se mantém atualizada, ao contrário do que acontece neste país a gente com muito menos idade. Até aqui, tudo bem. Mas, pergunto, onde está a ajuda de Jesus Cristo aos mais necessitados? Entre estes conta-se Alexandra Solnado, que já há muitos anos estabelecera, digamo-lo assim, um contrato com Jesus Cristo. Convém esclarecer que tenho Jesus Cristo por uma pessoa de bem: e a ser assim, aquilo que diz a Alexandra Solnado será o mesmo que diz a Sarah Young, bem como ao menino que foi ao Céu e voltou. Assim sendo, e estando o país no estado em que está, não deveria Jesus Cristo fazer com que os livros de Alexandra Solnado fossem traduzidos para outras línguas, aumentando assim as exportações e trazendo divisas para o país, em vez de dizer coisas a missionárias de países que vivem mais folgadamente?

ESTOU PARA VER (a primeira edição foi interrompida por outras distrações) em que vai dar o “Governo Sombra”, agora que abandonou os estúdios da TSF e se instalou, ao vivo, na TVI24. Ricardo Araújo Pereira e os seus parceiros de governo agora reempossado são, em princípio, uma garantia: mas, como se sabe, mudar da rádio para a televisão nem sempre resulta… Aguardemos.

HÁ 10 ANOS ESCREVIA

«Ah, a TVI descobriu o que já estava descoberto e testado noutros países – o “Big Brother Famosos”, um Big Brother igual aos outros, mas com a pequeníssima diferença que é a de os participantes não serem completamente desconhecidos. São pessoas conhecidas – no sentido de que não são completamente anónimas –, principalmente artistas e cantores. (…) Tudo isto se passa, como já disse, na TVI. A mesmíssima estação que tem os direitos de algumas das melhores séries de televisão (“Ficheiros Secretos” e “Ally McBeal”, por exemplo) e que as exibe à uma hora da manhã. Não é estranho que uma série que merece o horário nobre seja exibida já de madrugada? Obviamente que sim. Sobretudo quando o horário que elas mereciam é ocupado pelos “Anjo Selvagem” desta vida. Isso é que é complicado de entender. E dói, para quem gosta mesmo de ver televisão a sério.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3950 de 28 de Setembro de 2012

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