Coisas extremamente ridículas
Bernardo de Brito e Cunha
HÁ DIAS em que tenho a infelicidade de ligar o televisor (que ficou de véspera sintonizado na SIC, resultado de ter visto “Avenida Brasil”) bastante cedo e zás!, eis que me deparo com Maya e o programinha “As Cartas da Maya O Dilema”, que já vai perto da sua 300.ª emissão. De que trata? O programa tem duas fases: de manhã cedo os (geralmente são “as”) interessados ligam para um número de telefone (chamada de valor acrescentado, naturalmente) e um número restrito de eleitos consegue essa coisa quase transcendente que é a Maya lançar-lhe as cartas do Tarot. Até aqui, tudo mais ou menos bem: o pior são as respostas que Maya dá. Um dia destes dei com a “consulta” a uma senhora que trabalhava na peixaria de um supermercado e que corria o risco de ver terminar esse contrato de trabalho. Maya lança as cartas (não sei se este será o termo “científico”) e deu uma resposta que foi mais ou menos isto, que estou a citar de cor: “Não se preocupe, minha amiga: é possível que esse posto termine, mas no supermercado onde trabalha já deram conta das suas capacidades e vai ver que lhe vão oferecer uma colocação bem melhor.” Pronto, assim sem mais nem menos, sem saber sequer quais as capacidades da consultante. Caramba, assim também eu! Basta dar umas respostas positivas e a coisa está feita. O que me surpreende é que os “programas” já estejam perto dos 300 – e as pessoas continuem a ligar…
OS MAUS EXEMPLOS são uma coisa terrível – porque há quem os siga. Fartei-me eu de dizer mal do programa da SIC “Gosto Disto”, que eu considerava o paradigma da indigência mental, e eis que a RTP (que tem obrigações que a SIC não tem e que deveria puxar desses galões neste momento em que se discute – embora devagarinho – a sua privatização total ou parcial) eis que a RTP, dizia, faz uma cópia a papel químico, só que com duas agravantes. Para já é um programa diário, o que é pior. E depois, usa ainda mais vídeos (idiotas) do que o programa da concorrência. Dá dó ver pessoas (umas com mais talento do que as outras) como Eduardo Madeira, Manuel Marques e António Machado fazerem diariamente papéis tristes e sem graça. Bem sei que a vida está difícil para todos, mas isso não justifica tudo, nem transforma, automaticamente, a RTP em Santa Casa da Misericórdia. Os três, juntamente com o autor da ideia (que se calhar são os mesmos) confundiram a Marechal Gomes da Costa com o Largo da Misericórdia. O que me espanta é que, na Gomes da Costa, ninguém tenha dado pela troca de endereços e tenha dado o seu ámen ao projecto. E quando escrevi acima que este “Anticrise” é pior do que “Gosto Disto” é pela simples razão que o volume de vídeos é bastante superior ao do programa da SIC, o que deixa aos intervenientes (que são, como já disse, pessoas de talento, embora umas com mais talento do que as outras) um tempo de antena infinitamente curto. Ridículo, mesmo.
PORTUGAL RENUNCIOU a semana passada à participação no Festival da Canção da Eurovisão 2013. À semelhança do nosso país, também a Polónia optou por ficar fora da competição que se realiza em Malmö, na Suécia. Em comunicado no seu site oficial, a organização do evento revela que a decisão dos dois países se prende por questões financeiras. Mas estas coisas alastram: e, de então para cá, também a Grécia e o Chipre se puseram na mesma posição, embora a Grécia tenha deixado uma porta aberta: a de aparecer alguém que patrocine a sua participação. Só lamento que a organização se refira ao facto de “Pressões financeiras terem contribuído para a decisão da emissora portuguesa RTP”, como se pode ler no documento, e que não tenham sido outras as motivações da RTP. Espalhar a nossa cultura não é coisa que se possa medir em euros (por mais que o governo assim pense): mas convinha que a nossa participação cultural o fosse realmente – o que muito raramente tem acontecido.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«O grande problema da sida deu origem, mesmo na véspera do dia em que se assinala o dia mundial da doença, e em diversos canais de televisão, a vários programas sobre o flagelo que vai engrossando dia a dia e causando a morte a muitos milhões, por ano, em todo o mundo. Vimos os programas habituais: as reportagens, as manifestações e operações de prevenção e aviso, o que lhe quisermos chamar, invariavelmente com as mesmas caras que já tínhamos visto o ano passado e no outro. As figuras públicas, de facto, são as mesmas: e Lili Caneças, a quem uma televisão pediu umas palavrinhas para aquela reportagem, fez aquela coisa quase hilariante, não fosse o caso tão grave, que foi o aconselhar quem a via a deixar as práticas homossexuais e, “se não o conseguissem, então que tomassem precauções e utilizassem o preservativo”. Lindo, se não fosse ridículo.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3960 de 7 de Dezembro de 2012

