Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Mudam-se os tempos…

Bernardo de Brito e Cunha

QUANDO há 40 anos subi para a cobertura daquela paragem de eléctrico no Largo do Carmo – coisa que só essa diferença de idade permitiu, obviamente – fi-lo por uma razão simples: não é todos os dias que vemos a História a fazer-se e temos a oportunidade de a ver, lá do alto. Tive, como muitos, a esperança que aquela mudança de página representasse uma espécie de “admirável mundo novo” mas não foi preciso esperar muito para perceber que esse mundo não seria assim tão admirável como isso. Foi nessa altura que muitos começaram a bradar que “não foi para isto que se fez o 25 de Abril”. E não foi, de facto. Aos próprios militares que permitiram que houvesse Assembleia da República já é recusado que falem na comemoração do dia, tendo de escolher um local que não o dos festejos oficiais.

OS TRÊS canais de televisão escolheram, eles próprios, maneiras diferentes de ver e assinalar a data. O canal público terá sido o mais ousado, com João Adelino Faria a bordo de uma fragata no Tejo, com a cidade de Lisboa como pano de fundo. Não faltaram as imagens aéreas, o que é sempre um valor acrescentado. A TVI guardou-se para a noite e fez o “Jornal das 8”, com Judite de Sousa, em directo do Largo do Carmo. Já a SIC optou por ficar em Carnaxide, recorrendo à dupla Clara de Sousa e Rodrigo Guedes de Carvalho. E se esta opção poderá ser a mais conservadora de todas elas, a estação de Carnaxide fez melhor do que os outros, ao debruçar-se sobre as muitas transformações ocorridas nestas quatro décadas e mostrando mudanças de comportamento, em muitos campos e aspectos que não só o sexo, cabelos ou roupa.

A RTP apresentou uma mini-série de cinco episódios, intitulada “Mulheres de Abril”. Esta mini-série trata fundamentalmente da condição feminina e da evolução de costumes e mentalidades que afectaram a mulher desde as primeiras décadas do século XX até à actualidade. A dar voz e corpo a estas “Mulheres de Abril” estiveram actores e actrizes da actualidade de várias gerações, num elenco surpreendente que captaram a atenção dos espectadores pela diversidade artística e geracional que representam.
“Mulheres de Abril” contou-nos a história de Ana que faz 60 anos no dia 25 de Abril de 2014. Para comemorar o seu aniversário, Ana convida diversas mulheres que fazem parte do seu dia-a-dia e que de uma forma ou de outra marcaram a sua vivência. O ponto de partida para a conversa centra-se nas recordações que ela própria tem ao ter vivido de forma intensa o seu 20.º aniversário no dia 25 de Abril de 1974. Desde a empregada até à sua melhor amiga – passando pelas figuras familiares da mãe, filha e neta – todas vão recordar momentos e episódios das suas vidas e cruzar lembranças das mulheres de outras gerações que também deixaram a sua marca nestas “Mulheres de Abril”. Um jantar onde cada uma relembrou o seu passado e falou do presente. Juntas mostraram como o papel da mulher em Portugal mudou desde os anos 20, ilustrando o lado conservador e por vezes caricato da sociedade ao longo das décadas.

FOI BOM ter visto o programa de Ricardo Araújo Pereira no dia 25 de Abril. Pela primeira vez escreveu para aquele “Melhor do que Falecer” um texto sério e inteligente. Teoricamente podia julgar-se que o texto era humorístico, só que afinal era muito mais sério do que a camada mais superficial podia deixar supor. Foi bom ver um texto que não conhecia de lado nenhum – e que tinha uma grande qualidade.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Mas é preciso bastante mais estômago – ou um mal-estar muito forte – para nos mantermos na SIC. É que desde as cinco até às oito, hora a que chega o “Jornal da Noite” somos matraqueados com três horas de novelas brasileiras para todos os (maus) gostos. A saber: “Malhação”, “Da Cor do Pecado” e New Wave”. Podem dizer-me que nenhum destes produtos é para a minha escala etária: a verdade é que não tenho opção e, portanto, tanto faz estar na 3 como na 4… “Malhação” é uma história passada numa academia de ginástica e tem apenas uma vantagem: como já tem uma idade considerável, dá para recordar as estrelas das novelas de hoje quando eram jovens… Mas isto não chega, como motivo de fixação ao ecrã. O pior vem depois, com a história de “Da Cor do Pecado”, em que Reynaldo Gianecchini faz dois papéis (um deles já faleceu, entretanto) e cujo herdeiro… Não vale a pena explicar – mas também não vale a pena ver. E a tarde fecha com mais uma edição da tolice diária de “New Wave”. Quando finalmente chega o “Jornal da Noite”, já estamos dispostos a ouvir tudo.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4025 de 2 de Maio de 2014

Leave a Reply