Contas de fadas com final infeliz
Bernardo de Brito e Cunha
TALVEZ a única coisa em que a crise se tem revelado útil foi aumentar as nossas capacidades no campo da aritmética – quanto mais não seja a contar, ao longo destes anos, os euros que nos foram sendo retirados ao longo do tempo. Mas as televisões, no seu afã de se auto-vangloriarem, deram cabo desse trabalho de casa, por assim dizer. Na circunstância foi a TVI, que tecia loas a uma novela que estreara na véspera e cujos resultados mostrava chapados no ecrã: “Foram 1 milhão 409 mil espectadores, com 29,1 % de share.” Se tivesse ficado por aqui, as pessoas registariam, se fosse caso disso, e engoliriam a informação, caso estivessem para aí voltadas. Mas não, decidiu ir mais longe e dizer que o “Jornal das 8” de domingo registara “1 milhão 392 mil espectadores, com 33,5 % de share.” E aqui, qualquer português habituado a fazer contas a descontos e diminuições percentuais de salário terá levantado os olhos e perguntado, de si para si: “Estão enganados: como é possível que aquele programa, que teve maior percentagem, tenha tido menos espectadores?” E não é que quem está enganado é ele, embora o raciocínio esteja certo? Coisas da matemática e dos truques da TVI.
A VERDADE é que se a TVI quisesse que tudo fosse claro na mente dos portugueses não lhes teria mostrado a percentagem do share, mas sim a da audiência, no estrangeiro designada por rating. Porque não o fez? Por uma razão simples: porque a novela terá tido uns 13 vírgula qualquer coisa de audiência e é bem mais simpático, para quem se gaba, mostrar o número 29,1 do que um 13, 6 ou vírgula sete. E já agora, para que o mistério não fique no ar, porque é que aquele programa, que teve maior percentagem, teve menos espectadores? Porque no momento em que foi exibido o “Jornal das 8” estavam menos pessoas a ver televisão, no total de todos os canais que contam para esta coisa das audiências. Daí que 33,5 % correspondessem a menos espectadores do que aos 29,1 % da novela – altura em que esses tais 29,1 % da totalidade das pessoas que estavam a ver televisão, estavam ligadas à TVI e à sua novela. E a estação bem podia explicar isto, usando os números das audiências e não os do share e já não complicaria os cálculos mentais de quem a segue.
A SÉRIE “Pai à Força”, a que comecei a achar alguma graça quando o enredo evoluiu, tem tido uma vida um pouco estranha. Depois de ter começado a ser exibida à noite, com audiências simpáticas, em 2009, vai na sua quarta temporada (se não estou enganado) e tem sofrido alguns tratos de polé, estando neste momento a ser exibida na RTP1 nas manhãs de domingo. Combate, por assim dizer, uma outra série que sofreu tratamento semelhante, por parte da SIC, “Inspector Max” – e perde. E tenho pena que “Pai à Força” atravesse este momento menos positivo, até porque no seu episódio n.º 23, transmitido em Novembro de 2009, contou com algo não muito frequente em televisão, o crossover. Neste episódio, esta série fez crossover com a série “Liberdade 21”, também em exibição no mesmo canal. Em algumas cenas, houve partilha de cenários, situações e personagens. Por seu lado, também o 29.º episódio de “Liberdade 21” fez crossover com esta série, pois contou com a participação de Pepê Rapazote no papel de Miguel Saraiva, o cirurgião de “Pai à Força” que iria testemunhar num julgamento defendido pela empresa de advogados Vasconcelos, Brito & Associados. É por isso que tenho pena de ver, num cantinho das manhãs de domingo, uma série que foi tão inovadora. Mas isso mostra o estado da RTP e da sua falta de meios. E sem eles, convenhamos, é difícil fazer um serviço público capaz.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Desapareceu a NTV, um canal transmitido por cabo e cujo “N” inicial significava Notícias, no dizer de alguns, Norte, no dizer de outros e, para os restantes, a sigla completa queria dizer “Ninguém Te Vê”, dadas as audiências do canal. Audiências essas que agora, ao que parece, já não eram assim tão fracas quanto isso: o que deve ter sido determinante para que a RTP concretizasse o seu domínio sobre a estação e, por assim dizer, a perfilhasse completamente desde segunda-feira passada, dia em que passou a designar-se por RTP N – onde o “N” será fundamentalmente de notícias.
O mais estranho desta situação é que, se não estou enganado e a memória não me atraiçoa, uma das coisas muito apregoadas pelo ministro Morais Sarmento foi o de limitar o número de canais da RTP e respectiva despesa: e eu só a vejo é aumentar. Estranho não ter ouvido ainda aquelas costumeiras vozes de protesto que regularmente se insurgem contra uma televisão paga com o dinheiro dos contribuintes: mas quando esses descobrirem que há mais uma RTP, aí é que vão ser elas. E isto, naturalmente, sem falar no há muito anunciado canal Memória.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4030 de 6 de Junho de 2014

