Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

O imenso adeus à “Praça”

Bernardo de Brito e Cunha

NA ÚLTIMA sexta-feira e após quase 19 anos de exibição chegou ao fim o programa das manhãs da RTP1, a “Praça da Alegria”. Para a derradeira emissão, o canal público preparou um programa que vai revisitar as memórias desses anos. Conduzido por Tânia Ribas de Oliveira, contou com as presenças de Jorge Gabriel, Serenella Andrade, Hélder Reis e Herman José. Já Manuel Luís Goucha e Anabela Mota Ribeiro, bem como Sónia Araújo, os primeiros rostos do programa, deixaram testemunhos em vídeo. Marco Paulo, Quim Barreiros e o Padre Borga foram os convidados musicais da manhã, que teve ainda conversas com os cozinheiros Filipa Vacondeus, Ivo Loureiro e Cristina Manso Preto, as colaboradoras Cristina Candeias, Maria João Lopo de Carvalho, Carla Matadinho e Filipa Brandão Mira.

A “PRAÇA”, como lhe chamávamos, era o programa da manhã que tratava de todo o país e de todos os portugueses: da saúde e nutrição, das causas sociais, dos sucessos musicais, do desporto, da economia e das finanças, da gastronomia e culinária, da infância, do turismo e da moda. Tratava de todos os exemplos que nos enchem de razão: porque Portugal, apesar de tudo, é um país feito de inovação. E foi pena tê-lo visto partir.

NÃO POSSO concordar com o fim da “Praça”, a não ser que o Dr. Alberto da Ponte tenha abraçado (com dois ou mais braços!) aquilo que os seus antecessores sempre recusaram: que a RTP não tem que se preocupar com audiências, serviço público não é isso nem passa por aí. Mesmo que a decadência da “Praça” tenha começado com a mudança da empresa medidora de audiências, que, administrativamente, e em nome de uma melhor medição dos públicos mais apetecíveis para o mercado publicitário – entre os 25 e os 50 anos – tenha secundarizado os espectadores mais velhos, acabando com o daytime da RTP, audiometricamente falando. Ou ainda até ao facto de, para se reduzirem custos, se ter desperdiçado todo o know how de produção da RTP Porto, transferindo o programa para Lisboa, descaracterizando quer a génese do programa, quer o seu conteúdo, sendo a machadada final dada pela saída de João Baião, se bem que a saída de Jorge Gabriel tenha tido um efeito ainda mais perverso no programa.

NO ENTANTO, há uma questão que convém não esquecer nem ignorar: é que fica o capital de uma marca com quase 20 anos que será um desperdício deitar fora. Há tanto para se poder mudar num formato televisivo, com maior eficácia audiométrica, do que o nome de um programa presente na memória de qualquer espectador. Aquele programa foi uma escola: para Manuel Luís Goucha, João Baião, Anabela Mota Ribeiro, Tânia Ribas de Oliveira, Jorge Gabriel, Hélder Reis, para referir apenas alguns. E toda essa gente tem de ter possibilidade de transmitir tudo o que aprendeu ali, sobretudo numa altura em que a RTP procura novos apresentadores. Toda esta gente, formada na “Praça” não terá uma palavra a dizer nesse campo?

NÃO FALEMOS da derrota da equipa portuguesa. Quero apenas expressar a dúvida quanto à RTP1, que se intitula a estação do Mundial – mas que nunca ninguém sabe que jogos vai transmitir… Não teria sido útil que tivesse transmitido o jogo entre o Gana e os EUA, nossos próximos adversários? Só para vermos quem são, o que jogam e com que poderemos contar. Só isso.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Luís Filipe Menezes disse no “Telejornal” de segunda-feira que “a derrota da coligação do Governo e do PSD teve uma razão de ser e caras que foram responsáveis por ela. Porque no partido há caras que são forças positivas (caso de Marques Mendes) e outras que são negativas, como o ministro-adjunto José Luís Arnaut.” Isto parece ser uma frase de um político aberto, escorreito, honesto e que não hesita em apontar o dedo ao que está mal no seu próprio partido. Parece: não fosse, dias antes, ter assinado num dos diários de Lisboa um texto em que, a certo ponto diz que “Ferro Rodrigues parece ter parado nos anos 80, quando a sua tertúlia de amigos teorizava sobre o socialismo puro. A escolha de Sousa Franco para rosto das eleições de Junho insere-se nessa lógica. Sousa Franco, o pai do défice, o ministro que mais maltratou, por palavras e por actos, os seus colegas de Governo, só por serem do “aparelho socialista”. O homem que atraiçoou Sá Carneiro, que “fugiu” de Maria de Lurdes Pintassilgo, que quer fazer esquecer o tempo em que ajudou a redigir o programa do CDS. A negação do mobilizador cosmopolita, colorido e simpático de que o PS tanto precisava! Um partido que tem António Costa, Jorge Coelho, Seguro, Carrilho e Sócrates ter optado por um rosto político bolorento e com cheiro a naftalina, é masoquismo em estado puro. Pior era impossível.” Vale a pena dizer mais?»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4032 de 20 de Junho de 2014

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