Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Junho 4th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

A TVI não tem vergonha?

Bernardo de Brito e Cunha

À FALTA deste espaço, a semana passada, publiquei uma parte daquilo que iria escrever aqui num outro local, particular e quase inacessível (excluindo uma meia dúzia de pessoas) – o meu blog. E decidi reproduzir o que escrevi aí e nessa altura porque, infelizmente, teve continuação.
No domingo, dia 29 de Junho, o “Jornal das 8” da TVI abriu de forma pouco vulgar. O filho de Judite de Sousa falecera vítima de um acidente estúpido numa piscina. José Alberto Carvalho abriu o jornal com essa notícia e depois passou um videotape seu, à porta do Hospital Garcia de Orta, em que leu uma nota de Judite de Sousa. E que dizia: «Neste momento de dor, peço a todos os colegas jornalistas que se lembrem do valor das palavras.
A palavra aqui é uma: André. O filho que sempre quis e que sempre me quis; um homem maravilhoso, irradiante de alegria; de vontade de viver; de exemplo de empenho; estudo; trabalho e força de vontade. E sempre atento, sempre disponível, sempre carinhoso.
Já não irá iniciar em Setembro a desafiante etapa profissional que tinha conquistado por direito próprio numa empresa multinacional. Mas deixa-nos o seu testemunho. E esse testemunho só pode ser traduzido por palavras. Por isso, como sabemos nesta profissão, as palavras são a nossa vida e, neste momento, aquilo que nos resta.
O André merece ser lembrado pela forma como tocou as pessoas com quem se cruzou; e sempre e para sempre a minha».

JOSÉ ALBERTO CARVALHO acrescentou ainda uma nota dos pais que pediam que fosse respeitado o momento de dor que estão a sofrer: «Precisam de tempo, de espaço e de consideração na perda mais devastadora na vida de alguém que tem filhos», concluiu. Acontece que o mesmo José Alberto Carvalho, também Director de Informação da TVI foi o primeiro a desrespeitar o pedido dos pais do André em relação ao “tempo, ao espaço e consideração” ao autorizar a recolha de imagens do velório. Veremos se não haverá imagens da missa e do cemitério…
O meu texto no blog terminava aqui: e não é que houve mesmo imagens da missa e do cemitério?

E COMO se as coisas não estivessem já um bocado a dar para o torto, eis que uma semana depois, no último domingo, no espaço de Marcelo Rebelo de Sousa (e frente a José Alberto Carvalho), este deu os parabéns à comunicação social pela forma como cobriu a morte do filho de Judite Sousa – o que só se pode explicar atribuindo a opinião do professor ao facto de a) não ver a TVI e b) não ter visto as capas indecentes que o Correio da Manhã tem feito sobre a morte do filho de Judite Sousa. Em que mundo e país vive o professor? Mas o homem lê tanto livro que obviamente o tempo não lhe chega para tudo…

ENTÃO, por que razão que se perceba, haveria Marcelo de distribuir parabéns? Maldade ou ignorância do que se passou durante uma semana? É que o homem que estava sentado à sua frente, José Alberto Carvalho, é também Director de Informação da TVI. E se eu fosse colega de Judite (vá, colega, para não falar em cargos), não programaria uma reportagem sobre como sobreviver à dor de perder um filho, usando outras mães dolorosas, abusando delas e de Judite Sousa, como fez a TVI minutos antes de perguntar a Marcelo como se comportaram os jornais e as televisões. Só isso. E a Marcelo só ficaria bem rectificar a sua opinião um pouco desatenta: ou teve medo de confrontar o director de Informação e denunciar a reportagem e o resto – e talvez perder o empregozito?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Há pouco mais a dizer. Não fomos bastante fortes para resolver o problema da defesa grega, mas restam algumas consolações. Em primeiro lugar, o de sermos vice-campeões europeus (embora para muitos a segunda posição seja rigorosamente a mesma coisa que a última); para além disso resta-nos uma organização que, aparentemente, não falhou (mas temos de lembrar aquele deslize da segurança no jogo da final, com a entrada em campo de um intruso); e um entusiasmo como aquele, em torno da selecção de todos nós, com bandeiras, cachecóis e sei lá mais quê, foi coisa nunca vista. A festa nas ruas, a sempre comovente viagem do autocarro da selecção desde Alcochete até ao estádio, o entoar do Hino Nacional como se se tratasse de uma mera canção de claque – e não era? – são imagens que ainda hoje me arrepiam e deixam de olhos húmidos. Quem sabe se tudo teria sido diferente se nos tivéssemos unido à selecção desde que começou a trabalhar? Guardemos a lição para o Mundial.

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4034/35 de 11 de Julho de 2014

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