José Jorge Letria
Precisamente uma década depois do seu falecimento, Sophia de Mello Breyner é trasladada para o Panteão Nacional, onde vai partilhar um espaço de memória com o general Humberto Delgado e com Aquilino Ribeiro, duas personalidades que continuam a simbolizar, dentro e fora da cultura, o grande combate pela preservação e celebração da liberdade. Sophia passa assim a estar onde merece estar, ficando ainda por resolver a situação de figuras referenciais da nossa vida pública como Salgueiro Maia, Aristides de Sousa Mendes ou José Afonso, todos eles merecedores de idêntico reconhecimento.
O processo que conduziu a esta celebração pública de uma vida, uma obra e uma cultura iniciou-se com um artigo de José Manuel dos Santos, assessor cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, que depois encontrou a concretização parlamentar através da acção conjunta de um deputado do PS e de outro do PSD.
Sophia, nunca é excessivo lembrá-lo, foi e continua a ser uma das vozes maiores de toda a história da literatura portuguesa, com uma produção predominantemente poética onde também couberam, com destaque, a escrita para os mais jovens e a ficção narrativa.
Figura destacada da resistência à ditadura, Sophia não se ficou pelas palavras. Foi cofundadora da Comissão de Socorro aos Presos Políticos e participou, com coragem, noutros actos de denúncia da prepotência e intolerância do regime de Salazar/ Caetano. Mas o essencial estava na poesia que chegou mais longe através da voz de cantores da resistência como Francisco Fanhais, hoje presidente da Associação José Afonso, que musicou e gravou poemas como “Porque”, tantas vezes cantado em sessões de canto político em Portugal e junto das comunidades de emigrantes e exilados antes de Abril ter desembarcado no Rossio.
A grande poeta chega ao Panteão porque a sua obra e a sua vida continuam a ser referenciais para muitos portugueses e porque houve quem assumisse esta homenagem como uma prioridade cívica. De outro modo, esta celebração poderia não ter acontecido.
Após o 25 de Abril, Sophia foi eleita deputada numa lista do PS, acabando por se afastar da vida política, sem alarido nem sobressalto, alguns anos mais tarde, por certo cansada das manobras e contradições do próprio processo político. Deixou em todos quantos com ela conviveram uma intensa recordação a que não era estranha a sua inimitável grandeza cultural e ética, o seu talento e a sua enorme classe.
Da sua vasta obra poética, luminosamente marcada pela influência clássica da Grécia e pela luz desse território insular que nunca deixou de ser uma intensa referência cultural e geográfica, Sophia também deixou uma boa parte de si na correspondência com outras figuras maiores da nossa literatura, com destaque para Jorge de Sena. Essa correspondência está publicada em livro e teve um sucesso invulgar num livro epitolar. Nessas páginas trocadas e partilhadas está muito da angústia, do sonho e do desejo de liberdade de dois enormes escritores portugueses do século XX.
A Sophia devemos uma das mais belas e exemplares definições do que foi o nosso 25 de Abril: “Esta é a madrugada que eu esperava/O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo”. Ninguém, para além de Sophia, poderia ter dito mais e melhor.
Sophia passou a vida a escrever para “Esta gente cujo rosto/Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis”, e, ao fazê-lo, conferiu uma dimensão livre e soberana a uma escrita luminosa, límpida e poderosa que os leitores não esquecem e que vai conquistando sempre mais leitores com o passar do tempo.
A sua chegada ao Panteão com pompa e circunstância constitui uma celebração do seu percurso criador, da sua vida cívica e também do valor da própria cultura num tempo em que tanto se fala dela, esvaziando-a, contudo, do valor material e espiritual que de facto tem. Por outro lado, esta celebração ajuda a definir o perfil justo e merecido de quem pode ter acesso ao Panteão Nacional, evitando-se o excesso a que os grandes sobressaltos costumam sujeitar-nos. Sophia está onde merece e nós merecemos que ela lá esteja, em nome de todos nós.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4034/35 de 11 de Julho de 2014

