Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

São só coisas de miúdos

Bernardo de Brito e Cunha

ACONTECE A TODOS, querermos exprimir a nossa opinião. Até a Cristiano Ronaldo. E, na verdade, enquanto cidadão (ia escrever anónimo, mas não se aplica) ele pode dizer aquilo que lhe vier à cabeça. Cristiano Ronaldo até pode, enquanto cidadão, recusar-se a falar seja para que órgão de comunicação for, coisa que, de resto, ele faz amiúde. O que me parece que ele já não pode (não sei por que regras se rege o Real Madrid, mas devem ser brandas porque ainda não há muito tempo ele veio para os jornais discordar dos critérios que dispensaram alguns ex-colegas seus), o que ele já não pode, dizia, que me alarguei no parêntesis é, enquanto jogador e capitão da selecção, com ou sem camisola vestida mas em conferência de imprensa o mais oficial possível, arranjada a propósito de um jogo de futebol de qualificação, organizado pela FIFA ou UEFA ou outro acrónimo assim, onde só entram jornalistas autorizados, dizer o que lhe apetecer (ou responder torto, que é mais exacto) para alimentar uma vendetta recente. A história é conhecida: o grupo do “Correio da Manhã”, geralmente órgão oficial do clã Aveiro e seu principal propagandista, decidiu escrever que Ronaldo era o responsável pela saída de Paulo Bento da selecção. O capitão ficou enxofrado e, nessa conferência, uma jovem da CMTV quis fazer-lhe uma pergunta. Depois de pretender ignorar o que era a CMTV, quando lho explicaram, o capitão disse à jovem que era escusado perguntar, porque para aquele grupo ele não respondia. Isto é uma coisa de nada: a mãe daqui a uns dias escreve um novo livro, o CM faz um estardalhaço monumental e acabam todos aos beijos na boca. Mas acho que a Irina não entra…

TENHO ACOMPANHADO a selecção (esta é outra) de jovens potenciais cantores no programa “The Voice Portugal Kids”, que a RTP exibe aos domingos. Parece-me que esta fase de selecção deve ter sido feita a mata-cavalos e com poucos cuidados por parte da produção. Então não era possível mudar o saia-casaco de Raquel Tavares, os ténis (ridículos) de Anselmo Ralph e a vestimenta às franjas de Daniela Mercury? Eu acho que era: coisa bem pensada e tinha-se organizado. Assim dá ideia que andam há três semanas com a mesma roupa e podemos mesmo indagar-nos se tomam banho… Tal como me preocupa que ao fim de três semanas tenham ficado sem argumentos e comecem a repetir elogios e chavões. Anselmo Ralph, então, cometeu o erro de cantar por duas vezes o estribilho de uma canção sua (“para mim tu és a única mulher do mundo”, julgo que era isto) a duas concorrentes diferentes. Aquilo que para cada uma delas terá sido o maior elogio do mundo (eram fãs…) desvaneceu-se no domingo, quando viram que ele “diz o mesmo a todas”, como soe dizer-se. Uma produção atenta teria dado por tudo isto.

E NÃO CREIO que seja necessário, só porque são crianças com menos de 15 anos, andar sempre a pôr a mão por baixo e a tecer pseudo loas aos miúdos: passou por lá gente a “cantar” que eu não deixava entrar na minha escada, que ele há coisas que me assustam as cadelas. Aquilo é para começar a abater, daqui a uns tempos, verdade? Então para quê estar a dar-lhes esperanças? A sugerir-lhes (convencê-los) que aquele é o caminho certo, que não tarda nada serão grandes artistas. Todos sabemos que é mentira. Então, ao menos, que se faça uma coisa honestinha. Pronto.

JÁ VOS DISSE que a nova novela da SIC, “Mar Salgado”, me parece uma estucha. Vê-se que aqueles órfãos, coitados, vão sofrer meses a fios até saberem toda a verdade. Mas enfim, é o costume. No entanto, aproveitando o final de uma ou duas novelas nos idos de Setembro, fiz a mim mesmo uma promessa: não vou ver as novas, há mais coisas para ver, etc, etc. No entanto, vi há um ou dois dias algumas imagens de uma delas, “Império” e, meio distraído, só levantei os olhos quando uma música (minha conhecida) as acompanhou. Era um fiozinho de voz e uma guitarra apenas (duas, mas pode ser a mesma), depois um toquezinho de violoncelo, mas aquela canção sempre me perseguiu, por assim dizer e que julgo ter ouvido pela primeira vez num anúncio. Depois de muito procurar, finalmente encontrei: era uma canção francesa (aparentemente não uma espécie desaparecida), a intérprete uma mulher. A canção chama-se “Quelqu’un m’a Dit” e a intérprete Carla Bruni. Essa: a madame Sarkozy.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«A realidade, no entanto, encarrega-se de desmentir os primeiros-ministros entusiastas, mais tarde ou mais cedo. Aqui, neste caso, foi mais cedo: porque ainda Santana Lopes não tinha acabado de olhar o céu, a ver se já ribombava o fogo-de-artifício que anunciara, e já o petróleo – sempre o petróleo… – vinha complicar, pela segunda vez nesta semana, a vida que aos portugueses tinha sido prometida mais cor-de-rosa. Não se percebe como é que Santana Lopes vai cumprir: e se perguntasse a Bagão Félix? Ou se fizesse como o outro e fosse em demanda da Europa? Este país está a atravessar um momento difícil de mais, que é urgente resolver – e era bom que fosse já.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4044/45 de 17 de Outubro de 2014

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