José Jorge Letria
Poucos dias após o derrube do governo de Unidade Popular liderado por Salvador Allende pelas tropas comandadas por Augusto Pinochet, era assassinado no estádio de Santiago do Chile o cantor e compositor comunista Victor Jara. Era uma das primeiras grandes perdas causadas pela revolta de extrema-direita que custaria a vida a muitos milhares de chilenos integrados na vida sindical e política, nos movimentos estudantis e na dinâmica de cidadania que alimentava o quotidiano de uma pátria onde os detentores de grandes interesses não desistiam dos seus privilégios. Dias depois morria, na sua casa da Isla Negra, o poeta Pablo Neruda, Nobel da Literatura e também militante comunista.
As primeiras notícias sobre a morte de Victor Jara davam conta de que fora torturado e ficara com as mãos amputadas antes de ser executado. Era uma imagem de horror que chocava as pessoas que na Europa e noutros pontos do mundo lutavam pela liberdade e pelo respeitos dos direitos humanos.
Jornalista do “República”, tentei manter-me informado sobre o que de facto acontecera a Victor Jara, cuja obra musical e acção política conhecia, recolhendo também elementos para o que viria a ser, antes ainda do 25 de Abril, o livro “O Canto-Arma de Victor Jara”, publicado pelo próprio jornal quando a censura permanecia atenta e agressiva em relação às vozes da contestação e da resistência.
Por outro lado, consegui obter o contacto da viúva de Victor Jara, a bailarina inglesa Joan Jara, que entretanto conseguira exilar-se e a quem enviei o livro dedicado ao seu marido e que sei ter sido o primeiro, a nível internacional, a destacar a sua vida, o seu exemplo e a brutalidade da sua morte. Passados meses, Joan Jara escreveu-me a agradecer a edição, sublinhando a importância de se escrever sobre o seu marido e sobre a forma como fora vítima do horror imposto por Pinochet.
Passaram os anos, surgiram mais livros sobre o cantor mártir, Joan publicou um corajoso livro de memórias e surgiu em Portugal, após o 25 de Abril, a “Brigada Victor Jara”, que fez uma longa e brilhante carreira com base na música tradicional portuguesa.
Recentemente, Manuel Cadafaz de Matos, com quem trabalhei em duas publicações e que cumpriu uma brilhante carreira académica, enviou-me um recorte do “Le Monde”com uma notícia que menciona a identificação dos assassinos de Victor Jara, executado cinco dias depois do golpe com 44 balas desferidas por uma metralhadora. Um inquérito judicial revelou que o cantor foi torturado de “forma permanente”.
O autor de canções de referência como “Te Recuerdo Amanda “ e “El Derecho de Vivir en Paz”, Victor Jara foi detido nas instalações da Universidade Técnica do Estado com cerca de 600 estudantes e professores. O corpo foi depois encontrado junto de uma via férrea, onde a viúva o identificou, tendo entretanto sido sepultado numa rápida cerimónia clandestina. No passado dia 3 de Setembro, um tribunal de Santiago do Chile identificou os três assassinos de Victor Jara: os oficiais Hernan Chacon Soto e Patricio Vasquez Donso e o ex-procurador militar Ramon Melo Silva, por cumplicidade. Este último obteve a liberdade provisória mediante o pagamento de 500 mil pesos, o equivalente a 650 euros. Joan Jara não tardou a reagir, congratulando-se com decisão judicial que veio confirmar o que ela e outros há muito tinham como certo.
Entretanto, o Estádio de Santiago, onde o crime foi cometido, tem hoje o nome de Victor Jara. Em Dezembro de 2009, um longo cortejo atravessou as ruas de Santiago do Chile, com flores vermelhas, homenageando o cantor assassinado em Santiago. A presidente Michelle Bachelet, contemporânea de Jara, manifestou, com comoção, a sua admiração e apreço pelo cantor comunista assassinado pelos homens de Pinochet. A justiça deve sempre ser feita, ainda que leve décadas, para que a memória dos homens fique liberta de escravidões e silêncios cúmplices.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4042/43 de 3 de Outubro de 2014.

