Uma brincadeira de crianças
Bernardo de Brito e Cunha
EU JÁ NÃO entendo lá muito bem os concursos de talentos para jovens adultos (é certo que os artistas mais novos terão de ter o seu lugar, mas não me parece este o caminho) em que a família e os amigos votam, a troco de chamadas de valor acrescentado, semanas a fio, para que o menino ou a menina vão passando as etapas. Há ali gente com talento? Naturalmente que sim, alguns deles. Mas vão ali porquê? Pela exposição televisiva? Pelo dinheiro? Pelo carro? Pelo contrato para gravar um disco? Deve ser por tudo mas, creio-o bem, em especial pela primeira e a última destas razões. Mesmo que as chamadas dos primos, tios e amigos não cheguem para ganhar, ao menos tiveram essa exposição televisiva – e todos os concorrentes, gente da geração da Internet, sabem que isso vale mais do que todos os prémios juntos e pode mesmo fazer com que todas as outras coisas sejam realizáveis.
Julgo ainda que o vencedor dos “Ídolos” que terminou domingo passado na SIC mereceu essa vitória. Partindo do princípio de que as votações foram honestas (e registo que nem quando a eliminatória era ditada pela menor quantidade de votos nos foi dita qual a percentagem desses votos: talvez porque esse número fosse demasiado ridículo?) coisa em relação à qual tenho, aqui entre nós, seriíssimas dúvidas, o vencedor mereceu sê-lo por ter sido aquele que – ou falham-me as contas e estou a ser brutalmente injusto? – mais cantou em português e canções portuguesas. Porque, parece-me, um “Ídolos” em Portugal certamente procura um cantor português. Ou será que procura um cantor que emigre e vá cantar para o estrangeiro?
MAS TAMBÉM não entendo que se vá para um desses concursos com a perspectiva de ganhar e conseguir um contrato para gravar um disco. Disco esse que será comprado pelos amigos, primos, tios e restante família… e depois? São raríssimos os casos de vencedores que, por cá, conseguiram construir uma carreira sobre o resultado de uma coisa deste tipo – e o único exemplo de que me lembro é Sara Tavares. Onde estão todos os outros vencedores? Onde estão as suas carreiras? Os seus discos de grande sucesso? Não estão, não há ninguém que ainda cante, depois de ter vencido este ou aquele concurso, ou são casos raríssimos. Como o de Nuno Norte – que nem sei se ainda canta, depois de um tempo a fazer duo com João Gil…
E SE NÃO entendo lá muito bem os concursos de talentos para jovens adultos, ainda entendo menos que se faça o mesmo com crianças. Se os jovens adultos já têm uma voz formada, definitiva, e só poderão melhorar, os miúdos, por muito talento que se possa vislumbrar neles, irão passar por uma mudança de voz que modificará tudo, de uma forma radical, de tenor a barítono, de soprano a não sei quê. É uma injustiça o que se lhes faz. Estão a criar-se-lhes esperanças que, muito provavelmente, nunca acontecerão. Está a acenar-se-lhes com a fama, a pretensa glória, quando se lhes devia dar oportunidade para serem crianças, para aproveitarem enquanto ainda podem brincar.
A PRODUTORA HBO (abreviação de Home Box Office) é um canal de televisão por assinatura norte-americano, propriedade da Time Warner. Nos Estados Unidos é a segunda maior rede premium de canais da América do Norte. O canal exibe ou exibiu séries mundialmente conhecidas que contribuíram em grande parte para o renome de qualidade do canal. Muitos desses programas são conhecidos, dividindo opiniões, por apresentar com pouca, ou nenhuma, censura temas como sexo, violência, uso de drogas, homossexualidade, entre outros. Séries como From the Earth to the Moon, How to Make It in America, Bored to Death, Hung, True Blood, In Treatment, Big Love, Entourage, The Sopranos, The Pacific, Generation Kill, John from Cincinnati, Roma, Bluesville, Band of Brothers, Sex and the City, Crash, Spawn ou Game of Thrones, exibidas actualmente e em anos anteriores estão entre os maiores sucessos do canal. A boa notícia é que a HBO vai chegar ao mercado português a 1 de Setembro de 2015, ocupando a posição do “TVCine&Séries”: a má, já se percebeu, é que se trata de um canal do cabo, logo… a pagar.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«E como se as desgraças não se lhe avolumassem a ritmo exponencial, Manuel Luís Goucha ainda se viu presenteado com uma co-apresentadora que não tem nada a ver com a dos tempos da RTP. Dá pela graça de Cristina Ferreira. É uma desgraça e deprime-me ter de falar mais nisso. O problema têm sido os spots que anunciam o regresso do programa, depois das férias – o que acontecerá já na segunda-feira. Acautelem-se, portanto. Coisa tonta mais tonta não há, perfeitamente a condizer com o conteúdo normal do programa. É aí que todas as manhãs vemos – passe o exagero dos exemplos – o homem que matou a filha, ou a mulher de três cabeças (sim, de três, que a de duas já a SIC mostrou) ou a história infortunada do homem que casou três vezes três – e sempre com a mesma mulher. A Lei da Televisão devia ter uma cláusula que proibisse programas destes – mas não tem.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4084 de 28 de Agosto de 2015

