Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 30th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Coisas antigas, mas renovadas

Bernardo de Brito e Cunha

ISTO DE ESCREVER sob pressão nunca dá bom resultado – e contra mim falo. Então não é que a crónica do último jornal impresso, há duas semanas, tinha um título igual ao da crónica anterior? Primeira asneira de que me penitencio. E como se não bastasse, lá tínhamos a última frase do primeiro parágrafo a dizer que “Tudo acabará, suponho, no final desta semana, e em bem: os meliantes castigados e os bons a serem finalmente castigados. Porque é sempre assim.” Caramba, que é muito castigo junto e amplamente indiscriminado. Como é óbvio, o que pretendia escrever, mas fui atraiçoado por esta cabeça que não anda boa, era “os meliantes castigados e os bons a serem finalmente felizes para sempre”. Assim é que era e só assim é que fazia sentido. Espero, com igual intensidade, que os leitores me possam perdoar estes lapsos e que a cabeça melhore…

DAS CIDADES visitadas pelo Papa Francisco nos Estados Unidos, Filadélfia foi a cidade mais marcada pelos escândalos dos abusos sexuais praticados por membros do clero, com altas figuras condenadas por encobrir o que se passava, padres afastados e a arquidiocese condenada a pagar indemnizações avultadas a vítimas. Bento XVI tinha-se encontrado já com vítimas em Boston, em 2008. Expressando o seu pesar pelo escândalo perante uma plateia composta pelos bispos que participam no Encontro Mundial de Famílias, Francisco prometeu que doravante haverá melhor protecção. “Comprometo-me em assegurar uma vigilância cuidadosa, para que todos os jovens estejam protegidos e para que todos os responsáveis respondam pelo que fizeram”, afirmou.
O problema é que as dimensões do escândalo da pedofilia nos Estados Unidos, segundo os cálculos da própria Igreja Católica, citados pela Reuters, são imensas: pelo menos 6400 membros do clero estiveram envolvidos, entre 1950 e 2013, em todo o país, e cerca de 12 dioceses faliram devido ao pagamento de indemnizações a vítimas – cerca de três mil milhões de dólares, no total pago até agora. Pelo menos 100 mil americanos sofreram abusos sexuais por membros do clero enquanto crianças, segundo um relatório elaborado por analistas de seguros para o Vaticano em 2012. Mas mais vale tarde do que nunca. Ou de tentar tapar o sol com uma peneira.

A DIMENSÃO do escândalo da Volkswagen parece não ter fim. Agora surgem alertas para as ondas de choque que poderão atingir a reputação de outras marcas alemãs e até a percepção da marca Alemanha, ajudando a deitar um pouco (muito?) por terra a história propalada por alguns alemães, segundo a qual “os povos do sul da Europa deviam trabalhar como os alemães”. De acordo com a consultora Brand Finance, o valor da marca VW rondava os 31 mil milhões de dólares, apresentando-se como a terceira marca mais valiosa do mundo automóvel. No entanto, segundo a consultora, nos últimos dias a marca perdeu 10 mil milhões de dólares em valor, depois de se saber que 11 milhões de veículos poderiam ter sido equipados com um mecanismo que escondia a quantidade real de emissões poluentes.

É JÁ TARDE para conseguir parar o efeito corrosivo que a VW está a ter na reputação do país-natal, nomeadamente na sua cultura de negócios. A indústria alemã está assente na eficiência e confiança, ao mesmo tempo que os alemães são vistos como trabalhadores sérios, honestos e cumpridores da lei – ao contrário dos gregos, espanhóis e portugueses… Essa percepção só foi intensificada pelo governo Merkel, pela forma como abordou a crise da dívida grega.

MAS TEMOS uma outra questão, mais nossa. Segundo notícia do dia a que escrevo, o número de veículos da VW afectados pelo problema, em Portugal, rondarão os 95 mil. Isso pode significar que 95 mil possuidores desses automóveis terão pago, ao longo dos anos, menos Imposto Único de Circulação (em função do coeficiente relativo à emissão de gases). Será que Passos Coelho/Maria Luís Albuquerque vai obrigar esses automobilistas a pagar a diferença com efeitos retroactivos?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Confesso: eu adoro esta mulher. Falei dela ainda não há muito tempo, a propósito de um trabalho sobre os incêndios. Chama-se Sandra Felgueiras e é jornalista da RTP. É, também, filha de Fátima Felgueiras e durante o tempo em que a mãe esteve no Brasil, nunca se quis ligar ao processo e às notícias. Manteve, como muitos jornalistas não fariam, a distância que se impunha. Mas na hora do regresso de Fátima, lá estava ela, não a fazer a reportagem para a RTP 1, mas ao lado da mãe com quem, de resto viajou de avião. Cada vez gosto mais dela.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4088/89 de 2 de outubro de 2015

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