E sai mais um comendador! E dos bons…
Bernardo de Brito e Cunha
E COMO diria o meu filho, citando um humorista, “a minha vida é isto”: cheia de surpresas e coisas que me desgostam. Quando eu imaginava que Cavaco Silva decidiria ter um final de mandato discreto (ou alguém que o aconselhasse a isso, que ele parece já não ter capacidade), pumba!, lá vem ele fazer das suas. Na sua mais recente rodada de distribuição de medalhas, comendas e condecorações, que aconteceu há uma semana, o ainda presidente decidiu incluir António Sousa Lara na sua lista. E Lara, que é nome de heroína de Boris Pasternak foi na tarde de dia 18 agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a “quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro”. Portanto, é fácil concluir que nem o nome nem a condecoração lhe assentam. Nem um poucochinho.
SOUSA LARA, que é agora professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) foi subsecretário de Estado da Cultura (entre 1991 e 1992) e a sua passagem pelo governo chefiado por Cavaco Silva ficou marcada pelo veto à candidatura do livro de Saramago, “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, ao Prémio Literário Europeu. Na altura Sousa Lara disse que a obra “não representava Portugal”. E logo de seguida, muito justamente, Saramago – que viria a ser consagrado Prémio Nobel da Literatura seis anos depois – acusou Sousa Lara e Cavaco Silva de “censura”. O nosso segundo Nobel, depois do “acidente Lara”, trocou Portugal por Espanha, fazendo convergir todas as atenções que sobre si caíram para Espanha – deve ter sido este o serviço relevante prestado por Sousa Lara a Portugal…
NA CERIMÓNIA dessa quinta-feira, este assunto foi naturalmente abordado, com o professor catedrático a desvalorizar o sucedido, e mantendo a defesa da conotação ideológica do Governo na época: “Um Governo tem uma conotação ideológica, não tem que agradar a toda a gente, é um Governo da maioria contra a minoria, em última análise. Toma medidas polémicas que, democraticamente sufragadas, têm de ser aceites”, sublinhou Sousa Lara, que acredita ter recebido esta distinção pela sua carreira de docente. Eu também acredito: nisso, no Pai Natal e no Coelho da Páscoa. Não bastava já terem sido condecorados ex-pides, era preciso acrescentar Sousa Lara ao ramalhete?
AINDA BEM que o Festival de Berlim atribuiu o Urso de Ouro das curtas-metragens a um dos dois filmes portugueses a concurso, no caso “Balada de um Batráquio”, de Leonor Teles. Que ela própria descreve como “uma exploração lúdica em dez minutos das superstições, dos mal-entendidos e da xenofobia para com a etnia cigana”, a propósito da crença de colocar sapos de louça à porta das lojas para impedir a entrada de ciganos. Nas palavras genuinamente surpreendidas da jovem cineasta – que nasceu em 1992, é a mais jovem vencedora de sempre de um Urso de Ouro, e que é de etnia cigana por parte do pai –, “Nunca pensei que um filme tão parvo pudesse ganhar um prémio como este”. Mesmo que de parvo o filme possa não ter nada. Mas esta curta-metragem talvez possa ainda vir a ter outra virtude: a de fazer ver à Novartis Consumer Health – Produtos Farmacêuticos e Nutrição, Lda. (situada neste Concelho), e que distribui o medicamento Mebocaína, destinado a quem tem “dificuldade em engolir”, que uma agência de publicidade que utiliza a xenofobia como argumento ou imagem, não pode nunca dar bons resultados. E que, aproveitando a boleia de Leonor Teles, talvez pudesse deitar aquela coisa fora. Coisa, sim: que anúncio é que não é.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Os 24 episódios que compunham a primeira época da série “Perdidos” sofreram tratos de polé às mãos dos programadores da RTP, que exibiram vezes sem conta o mesmo episódio, voltaram atrás na acção, tornando a repetir (que se me perdoe o pleonasmo, mas era mesmo assim), avançando mais um niquinho e por aí fora. Como se isto não fosse bastante para desorientar o espectador, aconteceu o tal interregno, marcado pela passagem muito ocasional de um episódio… que já tinha sido visto, naturalmente. Não havia quem aguentasse este ritmo alucinante – mas havia muita gente que desesperava. É que, na realidade, uma das condições de sucesso de uma série é que seja boa; mas depois convém também que as estações que as transmitem lhe respeitem a periodicidade e que vão passando os episódios à sua cadência natural. A RTP, como já fiz questão de explicar, não fez nada disto e receio que tenha comprometido seriamente o sucesso de uma série que pode ter tudo para ganhar.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4106/4107 de 26 de Fevereiro de 2016.

