Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 18th 2026

UMBERTO ECO: A CHAVE DE OURO DA OBRA ABERTA

José Jorge Letria

Foi o romance “O Nome da Rosa” que deu a Umberto Eco uma popularidade que ultrapassou a Europa e fez dele um dos mais influentes e transgressores intelectuais do século XX e do princípio do século XXI.
A adaptação cinematográfica desse romance universalizou ainda mais o seu nome e a sua obra. Não precisou do Prémio Nobel da Literatura, que não lhe foi atribuído, para se tornar famoso e marcante por aquilo que pensava e escrevia. A Europa que amava e tão bem conhecia a partir da sua expressiva e profunda italianidade fica muito mais pobre com a sua morte inesperada, até por estar a viver um tempo de empobrecimento político, económico e cultural que ninguém pode negar.
Na hora da partida, é imperioso que lembremos o facto de este homem de 84 anos que se manteve activo, inovador e crítico até à hora da morte ter sido também um grande estudioso da teoria da linguagem, um semiótico e um pensador que compreendeu mais profundamente a nossa época e a dimensão complexa e tantas vezes desnorteante da chamada “cultura de massas”.
Nascido em Alexandria, no Piemonte, em Janeiro de 1932, estudou filosofia e formou-se com uma tese sobre a estética em São Tomás de Aquino. Trabalhou na RAI, a televisão pública italiana na área dos programas culturais e em 1962 publicou “A Obra Aberta”, um dos livros de ensaios mais importantes e transformadores do século XX. Ainda hoje esse livro continua a ser obra de releitura e de referência para muitos investigadores e estudiosos académicos. Recordo-me bem do êxito e também do desafio intelectual causado pela tradução de “A Obra Aberta” traduzido para português em 1983. Eco tornou-se famoso, também o seu nome de sonoridade única ajudou a construir essa fama. Mas, a minha geração foi especialmente tocada pela publicação em edição portuguesa de livros como “Diário Mínimo” ou “Apocalípticos e Integrados”, que demonstraram a importância de Umberto Eco como grande pensador contemporâneo que nunca deixou de reflectir e de escrever sobre as grandes questões do nosso tempo e em particular sobre os temas ligados à comunicação. Eco sempre foi um excepcional comunicador que compreendia melhor a nossa sociedade a partir desse ângulo de observação e inquirição. Nada foi estranho a Umberto Eco como pensador e ensaísta, desde o futebol, à televisão, passando pela publicicade, pelo terrorismo e por uma vontade quase renascentista de saber sempre mais, de aprender mais e de ir à frente do seu tempo.
Sendo um grande académico, com obra, prestígio e uma imensa capacidade de tocar outras áreas e mundos, Umberto Eco, irónico, provocador e desassossegado, foi um homem do seu tempo sem aceitar, limites, fronteiras ou restrições conceptuais ou ideológicas. Nesse sentido deverá dizer-se que foi um dos mais livres intelectuais do seu tempo. Também por isso não é importante determinar se foi recuperado pelo sistema e se pactuou com ele para se tornar mais famoso e influente. A verdade é que utilizou o prestígio e o poder acumulados para apoiar e desenvolver grandes projectos aos quais aceitou ficar associado.
Sendo uma intelectual brilhante, tinha o peso das grandes vedetas quando participava numa feira do livro, num debate sobre o futuro das tecnologias da comunicação ou numa atitude de protesto como autor e como cidadão. No ano passado, desligou-se da editora Bompianti, à qual estava ligado desde 1959, ano em que foi contratado como consultor editorial, porque foi essa a maneira que escolheu para se indignar com o facto dessa editora ter sido comprada por Berlusconi. Com ele saíram outros escritores, mas foi o seu nome que deu mais força e importância mediática ao acto de rotura e de público afastamento. Ligou-se, em alternativa, à pequena editora “o Navio de Teseu”, que agora irá publicar ”La Bustina de Minerva”, que integra as melhores crónica vindas as lume na revista “L’Espresso”.
Eco considerava-se, acima de tudo um filósiofo que só escreva romances nos fins de semana. E estava atento, sempre atento, teimosa e desafiadoramente atento. Vi-o em grandes acontecimentos internacionais, designadamente na Feira Livro de Turim, em que disse, negando as visões radicais e bombásticas que todas as formas de comunicação e partilha de saberes iriam coabitar e fortalecer-se em conjunto. Disse mesmo que se imaginava, ao longo das décadas, na sua biblioteca, a ler jornais, a consultar livros, a escrever no computador e a procurar nas prateleiras as edições mais antigas e fundamentais para apoiarem o nosso olhar sobre o mundo e sobre o homem. Foi, por tudo isto, um grande intelectual que herdou o legado moral e filosófico dos Renascimento e conseguiu incorporar na lista dos seus interesses temáticos os grandes temas do seu e do nosso tempo. A Europa, mais do que nunca, precisa de pensadores como ele para se conseguir pensar e para articular os conceitos de passado,presente e futuro. Nele, nunca a cultura foi um espaço reservado de laboratório onde ninguém podia entrar para não ter acesso a áreas secretas do saber codificado. Pelo contrário, pensou sobre tudo, com os outros, com o saber antigo e o actual, recusando qualquer forma de banimento ou de subalternização.
É e será sempre importante e útil recordá-lo como romancista, mas é indispensável recordá-lo e como filósofo de uma modernidade inquietante e única, neste tempo de transformações profundas em que não é urgente saber se Homero é mais importante e influente que o Rato Mickey. Sobre tudo isso falou, pensou e escreveu e é essa uma das razões por que sentimos um vazio no espírito, por sabermos que, tenha a rosa o nome que tiver, nunca mais usará como símbolo e instrumento de comunicação o eco da sua voz. Eco nunca se resignou e pouco interessa saber que factura pagou para ser tão famoso e marcante. Conseguiu sê-lo por ter harmonizado de forma única a inteligência com a cultura e com uma visão abrangente e poderosa da realidade de que fazia parte e que em seu redor todos os dias imparavelmente se transformava.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4106/4107 de 26 de Fevereiro de 2016

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