Microfones, gravadores e liberdade de informação
Bernardo de Brito e Cunha
MESMO antes daquela arrancada de Renato Sanches no jogo contra a Croácia, que passou a Nani, que atirou para Ronaldo, que permitiu a defesa do guarda-redes croata mas que Quaresma acabou por marcar de cabeça (Quaresma de cabeça? Mas anda tudo doido? Quaresma não é o mago das trivelas? Adiante), outro fenómeno – mais importante, parece – aconteceu. Não, não foi o jogo com a Hungria e respectivo empate, que nos permitiu estar no sábado passado a jogar com a Croácia. Esse acontecimento, mais badalado do que o resultado do próprio jogo, teve lugar da parte da manhã desse mesmo dia. Os jogadores da selecção faziam um passeio pela borda do lago, uma inambulação descontraída em que foram acompanhados pelos media, mas em que, parece, não eram permitidas perguntas nem conversetas. Mesmo assim, o audaz representante da Correio da Manhã TV atreveu-se a falar com Cristiano Ronaldo: a resposta veio sob a forma de uma espécie de “empresta aí o microfone que eu já te respondo” e zás, o microfone foi atirado para o fundo do lago.
PERFEITO. O problema é que uma grande parte da população achou o gesto magnífico, baseando essa opinião no facto de o jornal Correio da Manhã se ocupar a denegrir, dia sim dia sim, o capitão da selecção. À segunda-feira que é gay, à terça que espancou não sei quem, à quarta porque sim, à quinta já porque não e assim em diante. Os processos contra o jornal existem e sucedem-se, portanto a opinião pública pende para o lado do “perseguido” e concorda com o gesto. No entanto, Henrique Pires Teixeira, presidente da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), considera que está “em causa um crime de atentado à liberdade de informação”. Para este advogado, o jornalista da CMTV “estava a trabalhar e a cumprir a sua função”. Só resta saber se Ronaldo agiu “com intenção de o impedir de informar ou se havia alguma picardia anterior entre ambos.” O jurista diz ainda que se trata “de um crime público” e que por isso “o MP teria de investigar.” Só não o fará porque “o eventual crime foi cometido em França e terão de ser as autoridades francesas a investigar”. Assim à vol d’oiseau também tenho de dizer que nem Comissão nem Sindicato alguma vez se preocupou (muito) com as inverdades publicadas pelo Correio da Manhã e pela divulgação de informações em segredo de justiça pelo jornal. Mas isso são outras histórias.
EU TENHO opinião, claro. E que é achar que Cristiano, apesar de tudo, esteve mal. Porque para achar que esteve bem eu teria de concordar com o gesto inaceitável de Ricardo Rodrigues (lembram-se?), o deputado que durante uma entrevista à revista Sábado (que, por acaso, pertence ao mesmo grupo editorial) meteu ao bolso dois gravadores de uma equipa de repórteres com quem tinha acertado conceder uma entrevista. Foi julgado: não cometeu furto, mas “atentou contra a liberdade de imprensa”, sentenciou o tribunal.
Ao deputado Ricardo Rodrigues, na altura, não ocorreu que bastaria dizer aos jornalistas: “Não continuo a entrevista e não autorizo a publicação de nada desta conversa” porque, eventualmente, não estaria a gostar do caminho que aquilo estava a levar. Essa recusa não é nenhum atentado contra liberdade de imprensa e os jornalistas teriam de respeitar-lhe a vontade, por maior que fosse a decepção e a atrapalhação de agenda que isso causasse. O entrevistado é dono da sua palavra até ao momento da publicação. Pode fazer exigências sobre as perguntas a que aceita responder, tem direito a rever as respostas e até lhe é permitido exigir conhecer o modo como a entrevista vai ser tratada e titulada: os jornalistas só têm de aceitar – ou não publicar nada. Roubar dois gravadores ou atirar um microfone para o banho vem a dar no mesmo. E tenho pena: porque considero mais Cristiano Ronaldo do que Ricardo Rodrigues. E o primeiro pôs-se ao nível deste último.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«E por falar em circo: quem deve andar muito feliz com os êxitos da selecção por terras da Germânia, é o nosso governo e, principalmente, o nosso primeiro-ministro. Enquanto a selecção for somando êxitos, o povo anda pelas ruas aos gritos e abraços, em caravanas automóveis que parecem indiferentes ao preço da gasolina. E enquanto o fazem, José Sócrates vai governando calmamente, a coberto dos êxitos de Scolari & convocados: não faço ideia dos diplomas que podem ter sido aprovados enquanto os deputados da oposição e até os da maioria se abraçavam festivamente. A única coisa em que Sócrates teve azar, nesta altura, foi não ter podido baixar um cêntimo o preço do pão – e aí teria a população toda com ele. Quem diz pão, diz gasolina: o princípio do circo romano estaria igualmente observado.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4124/4125 de 1 de Julho de 2016.

