Momentos de glória? Sempre
Bernardo de Brito e Cunha
CONFESSO que não percebi a sanha com que os meus camaradas jornalistas (e durante quase 15 dias) se atiraram aos atletas portugueses que estiveram nos Jogos Olímpicos Rio2016. Ou melhor, percebo o porquê, o que não entendo é a intensidade da fúria. Julgo que o título de campeão da Europa de futebol nos caiu mal: devemos ter julgado que, depois dessa coisa completamente inesperada, tudo o que se seguisse seria, como soe dizer-se, “favas contadas”. Se calhar alguém se arrependeu de não ter feito um esforço para os mínimos olímpicos em natação, porque com aquela embalagem ganhadora qual Phelps qual nada!
TODA a gente que botava escritura nos jornais se lamentava que a Telma Monteiro não conseguira mais que o Bronze e os outros, que não conseguiram medalha nenhuma, tinham sido “uma desilusão” e um jornal teve mesmo a coragem de dar uma medalha de Lata a um atleta que não conseguiu vencer a sua competição… Os Gregos antigos tinham uma visão diferente dos Jogos, que eram ao mesmo tempo uma celebração religiosa e atlética: os vencedores tinham direito apenas a uma coroa de louros. Para além disso, eram restritos: só os Gregos podiam participar e as provas estavam fechadas aos “bárbaros” – estrangeiros –, escravos e mulheres. Talvez seja preferível fazermos aqui, no nosso Portugal, uns Jogos parecidos, só para nós…
COMO se sabe, o renascimento dos Jogos, os da Era Moderna, são da responsabilidade do Barão Pierre de Coubertain. Que, apesar de se terem tornado “capitalistas” em termos de medalhas (na verdade o Barão não teve culpa disso: este padrão só foi adoptado nos Jogos Olímpicos de St. Louis, em 1904. Nos primeiros jogos, Atenas 1896, os vencedores receberam uma medalha de prata enquanto os restantes uma de bronze) mas Pierre lá foi sempre dizendo que “o importante não é vencer, mas sim competir”. Os jornalistas portugueses já esqueceram isto há muito tempo – ou nunca souberam…
E a verdade é que os atletas portugueses cumpriram a sua obrigação: competiram. Não venceram e não conquistaram nenhuma medalha de ouro que, na verdade, são de prata com banho de ouro? Pois não, mas competiam contra os melhores das respectivas modalidades vindos de todo o mundo. E, neste contexto, ficar em 4.º ou 6.º ou até 20.º é pouco? Ora tenham vergonha, atletas de sofá! Mas mesmo para estes resta uma consolação: os nossos atletas não precisaram de fingir que foram assaltados, como fizeram os nadadores norte-americanos. E o que eles já perderam em contratos de publicidade?
LIGA a gente um aparelho de televisão nesta época do ano e lá estão elas, as repetições. Mais ou menos inesperadas, que as televisões não têm sequer o bom senso de nos avisar que o são, um pouco disparatadas e perfeitamente dispensáveis, dada a qualidade dessas repetições. Infelizmente, de anos passados transitou para este Verão, que tem sido dos mais quentes desde que há registos, essa novela de contornos maquiavélicos que dá pelo nome de incêndios e que traz por arrasto, como se fossem actores indispensáveis, os pirómanos e outras variedades de incendiários. E portanto, ainda marcados pelos capítulos pungentes que vimos e vivemos o ano passado, que tenhamos criado este hábito de nos sentarmos a ver os noticiários já com os olhos rasos de lágrimas, mesmo antes de surgirem as imagens, as labaredas, os gritos de angústia e desespero de quem viu arder tudo quanto tinha – e as mais das vezes tinha muito pouco – num instante tão breve. E a azáfama de quem combate é semelhante à de quem noticia, numa roda-viva entre fogos e reacendimentos, e mais fogos e a inevitável exaustão. E não se vê uma solução: quando seria bom que se pensasse no assunto e se tomassem medidas antes de estar tudo reduzido a cinzas. Bem sei que o dinheiro está caro e é curto: mas caramba!, safa-se tanto banco privado, não ficam uns trocos para a floresta?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Estrearam dois programas novos na RTP. Forma de dizer, que um deles é continuação, com outra cara e uma espécie de outro cenário. O primeiro vem antes do “Telejornal”, chama-se “Lingo” e trouxe um Heitor Lourenço a mostrar que a falta de jeito que mostra nas séries cómicas em que entra, também não resulta como apresentador de concursos. Basta dizer que não foi capaz de explicar para que servia o símbolo que aparecia no canto superior direito – e que ainda eu hoje estou para saber. O outro, “A Herança de Verão” é a continuação de “A Herança” de José Carlos Malato, só que com Tânia Ribas de Oliveira. Não teve muita graça – Malato também não a tinha quando começou o programa – e andou um pouco às aranhas até poder dizer se a resposta estava certa ou errada.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4129/4130 de 26 de Agosto de 2016.

