Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Virgílio, do alto do seu Castelo

Bernardo de Brito e Cunha

Só os mais distraídos (ou os “frequentadores” mais ou menos assíduos de outros canais que não a RTP) poderão dizer que o papel de Virgílio Castelo no canal público se limitou ao papel de psicólogo na série “Terapia”, de que aqui se falou no início deste ano. Nada mais errado. Aliás, o papel de responsável pela ficção da RTP só muito esporadicamente passará por aí. E o que se tem feito nesse campo começou a dar frutos (mais visíveis) em Setembro, com a estreia de quatro séries, se não me falha a conta.

“Aqui tão longe” é uma série sobre a distância, o medo, a crise, mas é também um passo inicial num caminho cujo destino final Virgílio Castelo vê com optimismo: o de, dentro de cinco anos, se estarem a fazer as primeiras séries para conseguir exportar. Como alternativa às novelas das privadas, a estação pública chega em 2016 à já longa história internacional do filão das séries, com uma aposta de produção de quatro títulos para o horário nobre. Esse objectivo da exportação poderá ser atingido nesse prazo se a estação conseguir, por ano, fazer nove séries de fluxo e mais duas ou três históricas, a exibir enquanto evento. Tal como a produção portuguesa encontrou uma maneira de produzir novelas compatível com os nossos meios e com qualidade, com os preços que temos, o mesmo poderá acontecer com as séries.

“Boys”, de Tiago Guedes, é uma sátira sobre os bastidores da política com Filipe Duarte como protagonista; “Miúdo/Graúdo”, de 19 episódios, é uma fábula mais juvenil, sobre um rapaz (o actor Henrique Melo) que viaja no tempo e regressa ao presente com o seu “eu” adulto, uma criação de Pedro Salomão e Paula Lobato. “Já Dentro”, protagonizado por Vera Kolodzig, é da autoria de Lara Morgado, e chegou através das consultas de conteúdos de 2014 – a estação pública recebe duas vezes por ano propostas de produtores independentes para financiamento directo ou através dos programas do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). Algumas das séries da RTP para 2017 já terão apoios do ICA.

Temas, ritmos, recursos narrativos – novelas e séries são diferentes em muitas coisas. Uma delas é o custo: é muito mais caro fazer séries do que novelas. O modelo de produção que vigora em Portugal continua a ser “pesado” nos horários para técnicos e actores e leve nos salários, todos lamentam. O modelo de produção que virá a ser construído para as séries poderá exigir durante algum tempo um sacrifício de toda a gente, mas não pode ser eterno, como se tem revelado para as telenovelas. Mas talvez com mais incentivos do Estado à produção audiovisual em Portugal as coisas se pudessem resolver…

A rtp quer assim povoar as noites de séries numa altura em que mais produções estrangeiras (sempre com o domínio norte-americano) e mais formas de lhes aceder existem em Portugal. E elas são o elogiado terreno onde parecem estar os grandes talentos e boa parte das audiências – em Portugal, os programas mais vistos são as novelas da TVI e da SIC, mas os canais de séries estão entre os mais vistos e as séries dominarão o consumo de TV em diferido (as gravações e acesso a programas transmitidos nos últimos dias). E estas são séries que são mesmo séries, em que em cada episódio acontece uma história diferente, não novelas disfarçadas. E este passo é da responsabilidade de Virgílio Castelo e seus colaboradores.

O comentador Marques Mendes, que já foi líder do PSD, classificou o novo imposto – no seu habitual tempo televisivo na SIC, ao domingo à noite – como uma espécie de TSU (taxa social única) de António Costa. A 7 de Setembro de 2012, Pedro Passos Coelho, então líder do Governo, anunciou que os trabalhadores iriam pagar 18 por cento de taxa social única, em vez de 11 por cento; e que os patrões, por seu turno, pagariam 18 por cento, em vez de 23,5 por cento. Na prática, o então primeiro-ministro baixaria os salários dos trabalhadores, pondo-os a pagar as contribuições dos patrões. Foi este o grande revés do Governo de coligação PSD- CDS/PP, que levaria milhares de pessoas às ruas, numa das maiores manifestações de protesto da história da democracia portuguesa. Mendes pode pensar que oito mil famílias (as que, a confirmar-se, irão pagar o novo valor de IMI) valem tanto como quatro milhões de trabalhadores – mas, por certo, engana-se. E, já agora, um pouco de contraditório neste espaço de domingo não caía mal. A ninguém e muito menos à SIC.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O programa “Exclusivo” não pode ser o “Cartaz TV” e por duas razões: porque não é apresentado por Jorge Alves, mas sim Ricardo Pereira e Bárbara Guimarães, e depois porque esse programa faz parte do acervo da RTP. Mas lá que se porta como tal, disso não há dúvida. As figuras da SIC estão sempre presentes, mesmo que as notícias já sejam requentadas, como era o caso de Herman, e nota-se uma preocupação de explorar o sucesso de “Floribella” até à exaustão. Ela é, realmente, quem traz a SIC ao colo em matéria de audiências – mas não tem chegado para bater a TVI.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 7 de Outubro

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