Uma série de odisseias
Bernardo de Brito e Cunha
Juro que havia quem pensasse que a novela “A Única Mulher”, que a TVI diariamente nos impinge desde 15 de Março de 2015, não acabasse nunca. A própria TVI, numa gala toda ela imbuída do espírito natalício mas a puxar a brasa à sardinha de uma grande superfície –mas sempre a pensar nos hospitais, atenção! – acaba de anunciar a contagem decrescente para o fim do massacre: e serão 24 dias. Mas atenção: com o Natal e festividades correlativas, como o final deste ano de 2016, não contem com o fim daquela xaropada antes do final de Janeiro de 2017… Xarope esse que não foi receitado por nenhum médico, mas por alguém com uma mente particularmente retorcida, que demorou tempo de mais a descobrir como terminar a maleita. Não creio que o vá conseguir de forma de jeito. Que escrevo eu? “De jeito”? O melhor que se poderia esperar seria que acabasse de forma digna, por respeito para com os actores que deram a cara durante todo este projecto, inexplicavelmente esticado para além dos limites do bom senso e da teoria geral da Televisão. E neste período tem sido possível assistir a uma coisa mal escrita, mas tão mal escritinha, que os próprios actores (os tais que dão a cara) muitas vezes deixavam transparecer o quanto aquilo estava mal. Julgo mesmo que alguns preferiram inventar umas “buchas” a dizer as frases que lhes tinham sido fornecidas… Adeus, que já vais tarde: é que esta é uma daquelas mulheres que não deixam saudades.
Não há televisão que não tenha, pelo menos, um programa dedicado à análise de jogos de futebol do dia anterior – ou já requentados de dois ou três dias. Esta semana vi alguns deles, porque o meu clube estaria certamente em foco. Aliás, diga-se em abono da verdade que, como o meu clube está sempre em foco, vejo sempre um desses programas. Mas esta semana, como a coisa era especial, vi mais do que um. A verdade é que todos esses programas se debruçam, de uma maneira geral e esta semana com mais afinco ainda, não no futebol como seria de supor. Num desses programas, transmitido pela RTP3, um dos comentadores, de seu nome Miguel Guedes e naquele espaço defensor (se é que a palavra se pode utilizar) do FC do Porto, tem contabilizados os penáltis que os árbitros não viram ou não quiseram marcar a favor do seu (dele) clube. Dá a ideia – e esta semana isso foi por demais evidente – que a estes programas interessa mais estar com atenção às faltas ou penáltis, às rasteiras ou encontrões, do que ao jogo em si. Nesses programas não se ouve nunca dizer “a minha equipa jogou melhor do que a tua” ou o inverso, tanto faz, “e portanto mereceu ganhar”. Não se ouve isso: o que se ouve é “se o árbitro tivesse marcado aquela falta vocês não teriam conseguido ganhar”. E estas discussões, como se sabe, apenas servem para incendiar os ânimos dos adeptos dos diversos clubes, porque o resultado, esse, está irremediavelmente carimbado assim que o árbitro apita o final do encontro.
Andou o nosso ex-primeiro-ministro a gabar-se de ter sido o único a pôr dinheiro na Caixa Geral de Depósitos para, poucos dias depois, se vir a descobrir que, durante seis meses, o Ministério das Finanças liderado por Maria Luís Albuquerque teve na gaveta pelo menos dois pareceres da Inspecção-Geral das Finanças relativos a relatórios trimestrais da Comissão de Auditoria da Caixa Geral de Depósitos de 2014 que mostravam um agravamento das imparidades do banco público. Estes pareceres estiveram guardados de Março a Setembro e só foram despachados pelo secretário de Estado das Finanças, Manuel Rodrigues, quinze dias antes das eleições legislativas de 2015. Claro que se poderia dizer que eram pessoas muito ocupadas e por aí fora. Mas o que é aborrecido é que esta informação mais detalhada sobre os caminhos dos documentos vá ao encontro do que foi referido no relatório do Tribunal de Contas divulgado na semana passada, que revelou a existência de um insuficiente “controlo [da CGD] pelo Estado”, entre 2013 e 2015. Coisa que tanto Passos Coelho como Maria Luís Albuquerque se fartaram de negar. E por onde andam os “cofres cheios” de que MLA tanto falou, em fim de mandato?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Desconheço se a saia de Carolina Salgado ainda tem um Dragão pintado (o que pioraria as coisas) mas, pelo que ouvi – e confesso que, embora saiba que deveria ter lido o livro para poder falar com conhecimento de causa, não me sinto tentado a fazê-lo – há ali, pelo menos, um ressabiamento dos antigos. Mas, ao mesmo tempo que reconheço isto, tenho também de parar um segundo para me dizer que nesse gesto de ressabiada, há também uma coragem que não é pouca. É que, ao descrever alegadas intervenções de Pinto da Costa em assuntos paralelos ao futebol e ao caso Apito Dourado, Carolina Salgado não devia ignorar que seria arrolada como cúmplice.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 16 de Dezembro de 2016.

