Renoir, Candice Renoir
Bernardo de Brito e Cunha
Já todos ouvimos, a familiares, amigos, frequentadores do mesmo café, frases como estas: “Que diabo, ‘A Guerra dos Tronos’ nunca mais começa!” ou, um par de meses depois, “Bolas, ‘A Guerra dos Tronos’ ainda agora começou e já vai dar o último episódio…” Esta loucura por uma série era uma coisa de que não tinha memória desde há bastante tempo. Sejamos claros: talvez como consequência dessa excitação ouvida a familiares, a amigos e, quem sabe?, talvez a frequentadores do mesmo café, nunca liguei à GdT – mas consigo compreender o sentimento. Lembro-me que eu próprio corria para casa às sextas-feiras, em meados dos anos 90, para estar frente ao televisor às 21h00… só para não perder o episódio de “Ficheiros Secretos” que, à cautela, deixara a gravar.
Convém que se diga que a oferta de séries hoje em dia, mesmo em Portugal, não tem comparação com os anos 90 que referi. Nessa altura a televisão por cabo dava os primeiros passos, não existiam TV Cines e a TV Cabo (entretanto já mudada de nome uma série de vezes) continha apenas no seu magro pacote um canal de filmes, o Canal Hollywood que ainda hoje se mantém. E com qualidade, convenhamos. Mas as séries em catadupa só surgiram com a aparição do AXN (dos diversos AXNs), do AMC, do SyFy, eu sei lá! Impossível lembrar-me de todos eles – até porque não os conheço a todos… Esta imensa oferta tem este senão: dos 150 ou 200 canais que nos põem em casa conhecemos uma dúzia e, quem sabe, na restante centena e meia podem passar coisas maravilhosas.
Antes do intervalo para férias falei-vos brevemente da minha guerra dos tronos, por assim dizer: a série francesa “Candice Renoir”. A história gira em torno da vida particular e profissional de Candice: já era polícia (e comandante) quando decidiu abandonar a corporação e seguir o marido por muito mundo. Quando uma traição põe fim à relação, Candice regressa a França com os quatro filhos e volta ao antigo emprego – só que desta vez é colocada em Sète, no sul, perto de Montpellier. Para começar, tem de se impor ao grupo que vai comandar e que a olha mesmo como uma mulher que esteve dez anos sem ser polícia, portanto e à partida um zero à esquerda. Para além desse problema profissional, que ela lá vai resolvendo com muitos sorrisos e intuição feminina, tem ainda de lidar com os quatro filhos, a casa, as aulas dos miúdos (uma já é adolescente), o futuro ex-marido que não deixa de lhe rondar a porta (mudou-se, de resto, para a vivenda ao lado da dela) e todos os outros pretendentes que lhe vão aparecendo.
Para além do facto de se tratar de uma série policial, o que me agrada em “Candice Renoir” (para além da própria Candice) é a circunstância de, de repente, ter voltado a ouvir falar francês na televisão. Já nem consigo dizer qual foi a última série falada em francês que segui, mas certamente que foi há muitos, muitos anos. Todo esse tempo teve o pernicioso efeito de não me fazer contactar com aquela língua. E se o Inglês, nas suas diversas formas, tomou conta da maior parte do audiovisual, a prática permite-me ouvir e não olhar para o ecrã – enquanto almoço, por exemplo. Com “Candice Renoir” já não consigo fazer isso, tenho mesmo de olhar. Talvez a série me ajude a poder fazer o mesmo com séries francesas. E isso seria mais um triunfo e ponto de interesse de “Candice Renoir”. Até porque uma nova temporada estreia para a semana.
De repente o país foi agitado por causa de uma fotografia. Nessa foto, tirada a duas páginas de dois cadernos de actividades, um para rapazes e outro para raparigas, estavam dois labirintos: um mais simples, no caderno para as meninas, e outro mais complicado para os rapazes. Daqui d’el rei que é um escândalo! E as redes sociais incendiaram-se, os jornais fizeram coro – mas todos eles republicando a imagem inicial. Foi necessário que Ricardo Araújo Pereira, durante o último “Governo Sombra” da TVI24, viesse lançar a luz sobre o assunto – e chamar alguns nomes a uma série de pessoas. E mostrou, não duas páginas, mas uma série delas, para concluir que os livrinhos são iguais. A ele valeu-lhe ter feito o curso de Comunicação Social: aos jornais que fizeram coro (onde se inclui o Público) nem por isso.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Alberto Serra apareceu na última segunda-feira no “Portugal em Directo”, a falar de Aquilino Ribeiro e de “A Casa Grande de Romarigães”, em directo de Paredes de Coura. Na conversa de todos eles, esteve sempre presente o factor pantagruélico de Aquilino e Romarigães e um deles, o mais estudioso, recitou mesmo o menu completo de uma festa que ali teve lugar. Até que chegou a altura do último convidado, Ladislau Silva, um homem que fez da quinta um viveiro de plantas e que a transformou no jardim com que Aquilino sonhara. E, a começar, disse qualquer coisa como isto (cito de cor): “Parece-me redutor limitar Aquilino a um homem que fazia grandes jantaradas. Estamos a esquecer o outro Aquilino, aquele que se levantou contra o caciquismo e lutou muito por esta região.” Escusado será dizer que Alberto Serra ficou, subitamente, com uma estranha tonalidade verde.»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4178 de 1 de Setembro de 2017.

