Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Maio 6th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Dos peditórios e seus desvios

Bernardo de Brito e Cunha

Vamos lá ver: os incêndios que ainda não pararam de assolar o país geraram uma quantidade de cinzas como nunca se tinha visto ou, pelo menos, como não se via há muitos anos. Mas geraram também uma onda de solidariedade nunca vista, com espectáculos, peditórios, chamadas de valor acrescentado, o que for. O problema é o que o valor acrescentado, no sentido de somado, anda ao que parece, um bocadinho arredio: o que levou o PSD (esses campeões do limpinho limpinho) e os autarcas da zona do Pinhal Interior a insistirem nas críticas à forma pouco transparente como estão a ser geridos os donativos para ajudar as vítimas dos incêndios de Junho, como temos acompanhado na televisão. Perante isso, o Presidente da República sugeriu mesmo um “pacto de não-agressão” entre partidos e candidaturas autárquicas e apelou para que não utilizem na “campanha eleitoral local” a “tragédia dos incêndios”.

O Presidente da República pediu ainda a quem de direito que esclareça os portugueses sobre o destino e a gestão das verbas doadas. “Foi-me explicado, mas acho que deve ser explicado aos portugueses”, disse Marcelo Rebelo de Sousa um dia destes, à margem de uma visita a um centro de apoio social, em Lisboa, e o primeiro-ministro fez a vontade ao Presidente. À entrada para a cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão (não confundir com o prémio da Visão, que a revista parece ter o destino traçado nas colunas de texto), António Costa explicou que o Estado só organizou um fundo, o Revita, que tem 1,9 milhões de euros e é gerido em conjunto com as autarquias e a sociedade civil. Nessa noite, na RTP3, o ministro da Solidariedade, José Vieira da Silva, declarou que “o Estado não assumiu a gestão dos fundos solidários, mas ofereceu-se para ajudar a coordenar”, prometendo que serão feitos “relatórios trimestrais” Nos últimos dias intensificaram-se críticas de autarcas que temem que parte dos donativos para as vítimas do incêndio esteja em parte incerta.

Também o PSD (outra vez os mesmos) acusou o Governo de descoordenação e incapacidade para gerir os donativos. Na sede nacional do PSD, a vice-presidente Teresa Morais exigiu esclarecimentos adicionais sobre o assunto, considerando o valor apurado “ridiculamente baixo”. Depois de o partido ter questionado o executivo em Julho e um mês depois, em Agosto, a resposta é a de que houve 3,2 milhões de donativos (Costa anunciaria, mais tarde, um número discrepante, superior a quatro milhões), “estando concretamente transferidos 1,9 milhões”, disse Teresa Morais. “Este valor é — julgo que toda a gente anuirá — muito baixo e ridiculamente baixo, se comparado com as expectativas criadas” — de 13, 14 milhões.
Minutos antes da conferência de imprensa do PSD, o Governo tinha emitido um comunicado, garantindo que na sequência da criação do Fundo Revita “já se encontra disponível um site na Internet com o objectivo de dar informação” sobre o seu funcionamento. “Até à data aderiram ao fundo mais de duas dezenas de entidades, com donativos em dinheiro, em espécie e em prestação de serviços, tendo sido entregues donativos em dinheiro no valor de cerca de 2 milhões de euros”.

Sobre outras verbas doadas, o comunicado dizia apenas que é do conhecimento público que entidades como a Cáritas Diocesana de Coimbra e a União das Misericórdias Portuguesas em conjunto com a Fundação Calouste Gulbenkian agregaram outros donativos, “tendo a responsabilidade pela sua gestão”. E o que eu estranho é que toda essa gente, as televisões (menos a RTP, que foi pronta a declarar a quem tinha entregado o dinheiro), os valores acrescentados, os pedintes profissionais a favor das vítimas, nenhuma dessas se tenha chegado à frente a dizer onde parava o dinheiro e o que tencionava fazer com ele. Mas, caramba!, por que é que eu estranho? Não vivemos em Portugal?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«O programa “Prós e Contras” teve, quase sempre, temas interessantes e actuais. E nesta onda de acontecimentos recentes – os McCann terem passado a arguidos e, dois dias depois, a sua ida (fuga?) para Inglaterra – parece-me que o programa fez bem em ter pegado no assunto para abrir a sua ‘saison’ televisiva. E terá feito bem por diversas razões, de entre as quais salientaria algumas. Em primeiro lugar, porque Fátima Campos Ferreira conseguiu pôr fim a um dos contras a que faço referência mais acima: quebrou o silêncio da PJ e, nada mais, nada menos, do que através de um directo com o Director da Judiciária, Alípio Ribeiro. Disse o que podia, de um processo de que não sabe tudo e, quanto ao que sabe, lá estava ele atado de pés e mãos pelo segredo de justiça. Mas foi bom que lá tivesse estado: deu a cara, desmentiu algumas dúvidas de má vontade entre polícias ingleses e portugueses.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 15 de Setembro de 2017

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