Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Maio 5th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Uma conversa da treta, mas também com graça

Bernardo de Brito e Cunha

Bruno Nogueira e Miguel Esteves Cardoso são amigos: agora, frente às câmaras e desde dia 5 de Dezembro, todos podemos ver sobre e como conversam. “Fugiram de Casa de Seus Pais” é um título à Bruno Nogueira para conversas à Miguel Esteves Cardoso? Talvez, porque quando deixa de ser uma entrevista “à antiga” e passa a ser uma conversa, ouvem-se as pessoas de maneira diferente. E essas conversas espontâneas que vão para o ar às terças à noite na RTP1, com convidados igualmente sem rede, foram explicadas (num outro programa) pelos próprios: “É só temas imortais”, dizia Esteves Cardoso. E Bruno Nogueira comentou com ironia: “Nós trabalhamos para a eternidade.”

Do amor de Miguel Esteves Cardoso pela pouco valorizada poesia do quotidiano já se sabia e escreve há anos, entre outras coisas, sobre os nadas que são tudo, como na série “Seinfeld”. Já Bruno Nogueira, humorista e actor que também é comentador da actualidade na rádio e desdobrador de clichés sobre fenómenos populares como a música pimba, queria conversar na televisão mas sem guião, e sem aquela necessidade de ser extremamente interessante naquele tempo certo. Acha ele (e M.E.C., também) que às vezes é dessas conversas que não têm interesse nenhum, aparente, que depois surgem coisas interessantes.

O curioso é que o fundador do semanário O Independente e da revista K, que também escreveu para televisão, como por exemplo para “Humor de Perdição”, de Herman José. Mas desde “A Noite da Má Língua” (1994-97), programa essencial da jovem televisão privada em Portugal, na SIC, que M.E.C. não tinha presença regular na televisão. E diz, com humor, que “Só não gosto [de fazer televisão] por vaidade, porque me sai mal. Uma pessoa que gosta de escrever gosta de ir atrás, de corrigir”, explicou.

Daniel Deusdado, director de programas do canal, defendeu que um projecto deste tipo envolve risco, mas “faz bem a síntese do que é hoje a RTP1, porque é um programa que pode ser simultaneamente popular e erudito”. Além dos dois protagonistas, semanalmente entram convidados para mais dois dedos de conversa. Os músicos Gisela João, Mário Laginha, Capicua e Ricardo Ribeiro, o humorista Nuno Markl, o jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, a apresentadora Júlia Pinheiro, o chef José Avillez, os actores José Pedro Gomes, Rita Blanco, Ana Bola e Miguel Guilherme compõem “Fugiram de Casa de Seus Pais”. Tudo foi filmado por Sérgio Graciano (“Liberdade 21”, “Conta-me como Foi”, “País Irmão”), na casa de M.E.C. à excepção do derradeiro programa. “É uma casa verdadeira, é a casa onde eu vivo, não vai lá ninguém, é uma casa a sério, aqueles livros são todos verdadeiros”, sublinha o escritor. Para todos os programas procurou “uma abordagem do cinema clássico autoral” para sublinhar a conversa e deixar espaço para o subtexto.

“Esse tipo de conversa é muito valioso e não existe na televisão, na rádio, a chamada small talk”, diz M.E.C.. “Fugiram de Casa de Seus Pais” é um espaço para o sumo da conversa de circunstância, surgida para passar o tempo, nos interstícios da familiaridade: “É aí que a pessoa cai na conversa, porque, humanamente, perante o vácuo, passados os primeiros dez, 15 minutos estamos a conversar. É natural, é o que fazemos todos os dias e sobre temas que nunca se vêem em televisão – o envelhecer, a pressa…”, conta. Ou, diz ainda o cronista, “sobre as desilusões”. “O “Seinfeld” era aquela coisa que não era sobre nada, mas claro que era superescrito, bem escrito e era sobre muita coisa”, diz sobre a série dos anos 1990 que fez dos detalhes do dia-a-dia (e da mesquinhez) a sua genialidade.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Vi com atenção e alguma esperança os dois programas de António Barreto – e Joana Pontes, como ele faz sempre questão de frisar – sobre os 50 anos da televisão em Portugal e as suas influências sobre todos nós. A atenção e a esperança provinham do facto de eu próprio ter acompanhado esses 50 anos e de ter acompanhado uma grande parte do que foi transmitido durante esse período de tempo. Até a “Telescola”!, que numa determinada altura achei que era a coisa mais interessante que a RTP transmitia… O que me pareceu, do primeiro episódio, foi que se tratava de uma resenha (até um pouco mal amanhada, confessemo-lo) que reunira os restos que ocasionalmente e a talhe de foice tinham sobrado [do programa] “Retrato Social” que fizera de Portugal. Não vejo aqui grande mal: fez uma coisa, a conversa desviou-se para outro lado e esses bocados foram aproveitados. Não vejo mal, dizia: mas esperava mais.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição de 22 de Dezembro de 2017

Leave a Reply