Semanário Regionalista Independente
Sábado Maio 2nd 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

De olhos bem fechados… ou abertos?

Bernardo de Brito e Cunha

Foi no fim-de-semana passado que teve lugar a segunda eliminatória do Festival RTP da Canção. Na primeira, já vos dei conta há uma semana, as coisas não correram bem com a contagem dos votos electrónicos e, desta vez, as coisas foram em maior número. Por exemplo: às tantas, num grande plano, surge um assistente de realização, creio, entrando calmamente em cena; logo a seguir, quando se ia arrancar para a canção n.º 1, o som teimou em não se fazer ouvir, o que deu direito a que a canção fosse novamente reproduzida no fim das outras todas e, dando assim, quem sabe, alguma vantagem a essa canção; e, finalmente, pareceu-me que esta dúzia de canções (mais qualquer coisinha) era bastante inferior, em média, ao da primeira ronda. Quem aceitou a concurso uma canção chamada “Assim Cantou Zaratustra”, que é da autoria de Miguel Ângelo, antiga estrela do grupo Delfins, tem na minha opinião um problema qualquer a pedir cuidados continuados. Mas pronto, recebeu zero pontos e tudo ficou em bem. Ganhou a “Canção do Fim” de Diogo Piçarra, de forma peremptória, isto é, com 12 pontos dos jurados presentes e outros tantos dos votos dos espectadores. Estava lançado para a final de Guimarães.

O pior, o bem pior, surgiu no dia seguinte e pela mão das chamadas redes sociais (Twitter, Facebook, etc.) que davam a tal “Canção do Fim” como sendo uma cópia de um hino da IURD, “Abre os Meus Olhos”, por sua vez uma versão de uma canção gospel, “Open Our Eyes”, do norte-americano Bob Cull. Imediatamente se gritou plágio, com duas excepções que eu conheça: a de António Victorino d’Almeida que disse ao Diário de Notícias “Plágio? Plágio não: é igual!” e, num outro sentido, a de Carlos Mendes, que tentou explicar, deitando água na fervura, com a observação “A canção foi escrita nos anos 70, em 1977, e não se pode esperar que um jovem nascido em 1990 conheça todas as músicas que foram escritas antes de ter nascido. Eu próprio, que nasci em 1947, não conheço centenas de músicas dos anos 30.”

Entre segunda e terça-feira, dia em que escrevo, muito foi dito, principalmente pelo próprio Diogo Piçarra – e terá sido esse, talvez, o seu maior erro. Vir para o Facebook com frases como “Desconhecia por completo o tema e continuarei a defender a minha música por acreditar que foi criada sem segundas intenções e estou com a consciência tranquila” ou “Nunca participaria num concurso nacional com a consciência de que estava a plagiar uma música da Igreja Universal” pouco interessava agora, depois de se ter descoberto o rabo do gato que estava de facto de fora, mesmo que (como eu o quero crer) o Diogo não seja dono nem do gato nem do rabo.

É muito bonito isto de vir dizer que se está de consciência tranquila. Eu, se fosse ele, poderia tê-lo sentido mas não o teria dito: antes disso tinha procurado saber o que diziam as regras, o regulamento do certame. E, no regulamento do Festival da Canção 2018 refere-se que “as 20 canções terão de ser obrigatoriamente originais e inéditas, não podendo ter sido comercializadas ou apresentadas em público anteriormente.” E também que “caso venha a verificar-se que há canções que não são originais e inéditas, ou que tenham sido divulgadas publicamente, por quaisquer meios existentes ou que venham a ser criados, as mesmas serão desclassificadas.” E se formos a ver bem, a versão da IURD editada no Volume II de uma compilação deve ter sido apresentada em público (e que público!) algumas vezezinhas…

E foi por isso que, cerca das 21 horas da terça-feira em que vos escrevo que Diogo Piçarra desistiu, depois de ter sido envolvido em suspeitas de ter apresentado uma canção plagiada. A desistência foi assumida pelo próprio artista, através de uma publicação no Facebook: “Não existem palavras para agradecer todo o apoio e carinho que tenho recebido nas últimas 24 horas de colegas de profissão, amigos, família e fãs”.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA

«Tivemos festas. Primeiro, a dos 15 anos da TVI, ainda a meio da juventude. A festa que assinalou esse aniversário, no entanto, foi bem mais adulta do que qualquer das anteriores. Mais adulta no sentido de menos “amadora” (mais Queluz de Baixo?), como têm sido até aqui. É certo que ainda há ali coisas a precisarem de muita limadela – e uma lima das unhas não vai chegar. Se é certo que houve ali um ou outro número notável – o quarteto de jornalistas, os 4 Station, é mesmo muito bom – outras intervenções pareceram-me escusadas. Para ser levado a sério, um director-geral, numa ocasião destas, faz um discurso (pequeno) de circunstância, mas não se presta a entrar no espectáculo. Se José Eduardo Moniz fez aquela coisa correcta que foi convidar os responsáveis pela concorrência, então não se pode prestar ao papel de bobo da corte, ainda que nessa “performance” faça pouco de si próprio.»

(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 4202 de 2 de março de 2018

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