Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 30th 2026

A CIVILIZAÇÃO DO ESPECTÁCULO VISTA E CRITICADA POR VARGAS LLOSA

José Jorge Letria

Distinguido tardiamente com o Nobel da Literatura em 2010, o peruano Mário Vargas Llosa, cidadão do mundo, publicou em Espanha o livro “La Civilización del Espectáculo”(Prisa Ediciones), agora traduzido em Portugal. Trata-se de uma reflexão fria mas apaixonada de um grande intelectual do século XX sobre o modo como a nossa civilização se converteu num imenso circo mediático no qual a fama, a popularidade, a notoriedade e a presença regular no espaço mediático se transformaram em temíveis formas de poder, banalizando as vias normais e legítimas para a conquista desse poder.
Não falta em Portugal quem utilize a televisão, comentando futebol, política, vida social e muitas trivialidades para manter sempre um pé no espaço que, na altura própria, permitirá materializar candidaturas e eventualmente ganhar eleições, sejam elas autárquicas ou presidenciais. A República dos valores e dos princípios transformou-se numa enorme república de comentadores, analistas e fazedores de opinião que montaram banca na feira mediática e, a partir dela, tentam manipular e condicionar o próprio devir político, económico e financeiro, branqueando, em alguns casos, as próprias responsabilidades que tiveram quando eram decisores na coisa pública.
Ao longo de mais de 200 páginas, aquele que só recebeu o Nobel da Literatura depois de muitos outros, com menores méritos, o terem recebido, produz um diagnóstico objectivo da forma como a literatura e as artes e os próprios conceitos de dignidade e de verdade foram vilipendiados pelo triunfo da frivolidade, da intriga política, do jornalismo chicaneiro e explorador de escândalos, abrindo as portas a um conceito hegemónico de entretenimento que a tudo lança mão para aumentar tiragens e audiências e, aparentemente, para deixar os consumidores felizes e apaziguados.
Conclui-se da leitura deste livro, que nos convoca para muitas outras leituras de sociólogos e cientistas políticos, que uma boa parte da crise profunda que afecta a Europa e o mundo também foi gerada no seio deste aparelho de produzir imagem e ruído que assenta num claro projecto ideológico, que é, afinal, o de anestesiar e alienar o cidadão comum para que não se dê conta da forma criminosa como o seu dinheiro, os seus direitos e os seus interesses são usurpados pelas estruturas que sustentam as economias de casino, o processo de destruição das classes médias e a destruição do tecido produtivo de países cujas economias vão soçobrando e arrastando com elas as próprias soberanias nacionais.
O autor de obras notáveis como “Pantaleão e as Visitadoras” ou “A Tia Júlia e o Escrevedor” é também um ensaísta atento e profundo que nos demonstra até que ponto a cultura que, ao longo do século XX e nos séculos anteriores, espelhou e engrandeceu os aspectos fundamentais da condição e da natureza humanas se converteu num banal produto de consumo sujeito à pressão das modas, das feiras, das estratégias comerciais, o que explica, por exemplo, que, dentro das editoras, conte muito mais a opinião do “gestor de produto”, coisa que não se sabe muito bem o que seja, do que a do consultor ou do director literário. E porquê ? Porque se assistiu a um feroz processo de mercantilização que faz com que só tenha direito de sobreviver o que vende num curtíssimo prazo e não aquilo que verdadeiramente forma o gosto, a cultura e a consciência dos leitores.
Nota Vargas Llosa que a figura do intelectual, que foi decisiva no século XX, pela forma como estruturou ideias, ideologias, padrões de gosto e modelos de intervenção praticamente desapareceu, remetendo ao silêncio e a uma assumida e intencional subalternidade. Esse lugar foi ocupado pelos comentadores-analistas, que, num prodígio de versatilidade, hoje falam de futebol, amanhã de política, no dia seguinte de livros e nos que depois virão de tudo aquilo que entretanto aparecer para ser comentado, justificando assim os seus “cachets” e mantendo vivas as suas ambições pessoais e políticas. É este o rosto e a configuração da tal “civilização do espectáculo”, consumista, banalizadora, superficialíssima, ruidosa, especulativa, desrespeitadora do que é profundo e perene na nossa nossa existência colectiva, que se transformou no modelo hegemónico que tudo condiciona, ao ponto de pôr mesmo em causa aspectos essenciais da sustentabilidade da democracia.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3960 de 7-12-2012

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