José Jorge Letria
Encheram-se as ruas de Lisboa, do Largo do Carmo à Avenida da Liberdade, com centenas de milhares de pessoas prontas a fazerem da memória do 25 de Abril uma verdadeira festa, mas também um poderoso factor de mobilização para as mudanças que não é justo adiar. Com justiça deverá dizer-se que a festa começou antes e que passou por momentos muito diversificados e complementares, não sendo preciso dar exemplos para que as pessoas os identifiquem.
Com toda a legitimidade poderá dizer-se que esta comemoração teria um significado diferente se não houvesse milhões de portugueses já exaustos de erguer a voz contra uma governação que, diariamente, os priva de muitos benefícios conquistados com o triunfo de Abril. Poderá dizer-se que também os muito ricos foram afectados. Porém, mesmo que fosse verdade, a frase não teria sentido, uma vez que os ricos além de terem muito mais defesa não costumam empobrecer durante as grandes crise. Acontece que alguns dos portugueses muito ricos estão hoje mais ricos que no início da crise. Assim, se prejudicados houve, não foram por certo eles, para já não falar dos esquemas e estratagemas de ordem judicial que permitem a banqueiros com múltiplas penas no cartório escaparem ao peso de uma sentença justa e inadiável.
Portugal está tenso e agitado. Um estudo universitário recente aponta para o imparável cansaço dos nossos cidadãos com o mau funcionamento da democracia que eles próprios têm legitimado com o valor do seu voto. Entretanto, o ex-Presidente Jorge Sampaio sublinha que a nossa democracia não é sustentável com tanta assimetria social e económica, pois há um momento em que as pessoas irremediavelmente se cansam partindo para a ruptura política e social.
Quem como eu teve, nestas semana, o ensejo de ver milhares de pessoas mobilizadas, do norte ao sul do país, das universidades às colectividades, das estações de rádio e televisão até aos jornais de província, por certo não terá dúvidas acerca da força da efeméride e, sobretudo, acerca do desejo de homens e mulheres de diversas idades de a celebrarem de olhos bem postos no futuro.
Tudo isto somado significa que as pessoas não só desejam celebrar Abril como estão ansiosas por revalidar os valores e os princípios que o tornaram triunfante e criaram condições para a instauração da liberdade, da democracia e para o fim da Guerra Colonial. Tudo isto visto e meditado quer dizer que o Portugal democrático, mesmo torcendo o nariz aos rumos actuais da democracia, continua vivo e actuante, exigindo uma outra forma de governar, mais solidária, mais social, mais tolerante e muito mais cultural. Tudo isto demonstra que pôr o joelho por terra junto dos centros de decisão política da Europa, nomeadamente em Berlim, está muito longe de ser a atitude justa para afirmar que há uma soberania para preservar, um povo para defender, um futuro livre e independente para assegurar. Não o perceber de forma limpa e clara é deixar o caminho aberto para todos os atropelos que a realidade europeia nos possa vir a impor a curto prazo, designadamente na sequência dos conflitos emergentes ou já em inequívoca fase de confronto.
No dia 25 de Abril, centenas de milhares de portugueses vieram para as ruas para celebrar Abril e para, em nome dele, mostrarem ao mundo que não desistem, não se rendem nem se vendem. É mesmo assim que as coisas devem ser feitas, com serena objectividade e firmeza. Foi assim que Abril triunfou, dando voz e rosto ao cansaço de milhões e, ao mesmo tempo, ao desejo de poderem acompanhar os novos ciclos da humanidade. Resta um problema a aguardar solução e resposta e, sobretudo, uma questão de fundo: estarão os portugueses dispostos a suportar durante mais de um ano esta sufocante desgovernação ?
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4025 de 2 de Maio de 2014

