Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Maio 11th 2026

ALBERTO DA COSTA E SILVA: UM MERECIDO PRÉMIO CAMÕES


José Jorge Letria

Quando o júri do Prémio Camões anunciou Alberto da Costa e Silva como a sua escolha deste ano, muitos se terão interrogado sobre quem é autor e qual a sua importância da sua obra no quadro da literatura do mundo lusófono. Se porventura a pergunta me fosse dirigida, responderia que poucas vezes a escolha foi tão justa e certeira, já que estamos em presença de um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa, com uma obra que se expande pela poesia, pelo ensaio, pelo trabalho como antologiador e homem de pensamento.
Comece por se dizer que Costa e Silva foi um dos bons embaixadores que o Brasil teve em Portugal, com uma rara capacidade de unir vozes e vontades e de aproximar verdadeiramente portugueses e brasileiros no domínio da literatura. Isso aconteceu no final dos anos 80 do século XX e Alberto da Costa e Silva deixou uma saudade perene em todos quantos com ele puderam conviver, recordando a sua elegância, o seu estilo, a qualidade da sua poesia, o seu amor a África e à poesia portuguesa. Para além disso, recordo-o também como o embaixador brasileiro que acompanhou o Presidente Mário Soares na sua visita oficial ao Brasil, na Primavera de 1987, e um episódio único ocorrido junto da recepção do hotel que nos acolheu no Recife.
Como Mário Soares visitou várias cidades em pouco mais de uma semana, todos os membros da comitiva tinham de deixar a mala pronta à porta do quarto para poder ser levada para o avião ao princípio da madrugada. O embaixador não fugiu à regra, mas esqueceu-se de deixar os sapatos fora da mala e, pela manhã, lembro-me de o ver em meias, junto de Mário Soares, que mandou um dos seus assessores comprar, com justificada urgência, um par de sapatos para o representante diplomático brasileiro que, sem nervosismo, aguardava que fosse encontrada uma solução para o seu caso pessoal pouco comum em viagens de Estado.
Colocado depois como embaixador em Bogotá, Alberto da Costa e Silva continuou a regar o canteiro das amizades construídas em Lisboa e as aprofundadas simpatias cúmplices que depois tiveram meritória expressão nas suas antologias. Falo, em concreto, da sua “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea”, de 1999, indispensável obra de referência de um grande antologiador e poeta. Terei sempre presentes as nossas conversas e uma troca de correspondência que durou muito para além da sua estada profissional em Lisboa. Tive o orgulho de ganhar a sua amizade e de a poder retribuir, congratulando-me hoje com o Prémio Camões que acaba de lhe ser atribuído, com justiça digna do maior aplauso.
Recordo, igualmente, livros seus “Vício de África”, a obra memorialística “Espelho do Príncipe”, de 1994, ou a colectânea poética “Ao Lado de Vera”, de 1997, distinguido com o prestigiado Prémio Jabuti, e que tem no título o nome de sua mulher, tradutora e escritora.
Filho do poeta António Francisco Costa e Silva, o poeta agora premiado desempenhou missões diplomáticas em Caracas, Washington, Madrid, Roma, Lisboa, Bogotá e noutras capitais, foi eleito em 2000 para a Academia Brasileira de Letras, a que presidiu no biénio 2002/2003, foi distinguido em 2004 com o título de “intelectual do ano” e nunca deixou de ler, de escrever, de investigar e de publicar, devendo-lhe a África que ficou ligada à língua portuguesa alguns dos melhores estudos suscitados por esse continente e pelas suas culturas.
Da vida e da obra do novo Prémio Camões, atribuído por unanimidade e por todos saudado com júbilo e amplo reconhecimento, todos têm presente a excelência da sua escrita poética, a solidez de uma cultura sempre actualizada e enriquecida, o apreço pelos amigos e pela grande riqueza cultural da lusofonia e dos povos e culturas. A atribuição deste prémio distingue um grande nome da literatura de língua portuguesa neste início de século. A última vez que falei sobre Alberto da Costa e Silva foi com Geraldo Holanda Cavalcanti, embaixador e presidente da Academia Brasileira de Letras, ao ser distinguido com a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores. Ambos sublinhámos a importância da sua obra e do seu contributo para estreitar as relações entre as pátrias e as culturas lusófonas. É isso que todos os seus admiradores sentem neste momento.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4030 de 6 de Junho de 2014

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