José Jorge Letria
Em ciclos comemorativos como o do centenário da I Grande Guerra é mais fácil recordar pessoas do que actos políticos e sociais que há muito prescreveram. É por isso que recordamos figuras que o esquecimento não deve fazer apagar mais do que as condições políticas em que o Corpo Expedicionário Português foi criado, treinado apressadamente e depois enviado para a Flandres, onde teve uma participação digna que custou a Portugal mais de sete mil mortos, sensivelmente dois terços das perdas sofridas pelas tropas portuguesas em 13 anos de Guerra Colonial, em três frentes africanas.
Como aconteceu na Guerra Colonial, milhares de jovens foram retirados da tranquilidade da vida familiar, do primeiro emprego ou do ensino e enviados para terras longínquas que nem sequer conseguiam identificar no mapa. Foi o que aconteceu no princípio do século com outros milhares que, assim, conseguiram ver Lisboa pela primeira vez, embarcando em seguida para a frente de batalha. Eram em muitos casos analfabetos e tinham da vida e do mundo uma visão limitada e muito defensiva. Muitos por lá morreram ou regressaram afectados pela exposição a violentos gases tóxicos que lhes atingiram os olhos, os pulmões, a garganta e outras partes do corpo. Houve os que se adaptaram e integraram e os que ficaram à margem da sociedade, vivendo atormentados à espera de um fim que tardava. Portugal ficou no lote dos vencedores, também para tentar preservar as suas colónias em África, mas pouco sentiu das vantagens desse estatuto vitorioso.
Um dos mobilizados dessa intervenção militar que começou perto do meio da guerra, em 1916, chamava-se Aníbal Augusto Milhais, nascido para as bandas de Valongo (hoje Valongo de Milhais) em 1895. Era analfabeto, tinha pouco mais de um metro e meio de altura e só conhecia a terra, a família e o gado. Com pouco mais de 20 anos era um dos portugueses presentes na duríssima batalha de La Lys. Era especialista no uso de uma metralhadora Lewis, que pesava pouco mais de 13 quilos e à qual Milhais chamava “Luisinha”, numa manifestação de carinho por tudo o que ela podia dar para defender soldados e trincheiras.
Em 9 de Abril de 1918 Aníbal Milhais estava com as forças portuguesas em Huit Maisons, pequena localidade que a guerra reduzira a meia dúzia de casas abandonadas, ou quase. Perante a dureza do ataque alemão, o oficial português ordenou a retirada imediata, mas Milhais decidiu permanecer, com a sua Luisinha, com as munições disponíveis e com uma larga experiência de árduo convívio com a terra agreste, no seu país de origem. Fez da trincheira a sua casa e disparou enquanto tinha munições, matando, ferindo e resistindo como mais nenhum foi capaz de o fazer. Já sem condições para permanecer, bateu em retirada, tentando encontrar a zona de acampamento das tropas portuguesas. Mesmo nas condições mais adversas, conseguiu sobreviver e salvar algumas vidas, com destaque para a de um oficial estrangeiro, membro das tropas aliadas contra o poder germânico.
Esta história, entre outras da vida de Aníbal Milhais, depois tornado Milhões e condecorado com Ordem da Torre e Espada, é contada com detalhe e qualidade narrativa pelo jornalista da Visão Francisco Galope, no livro “O Herói Português da I Grande Guerra”, publicado por estes dias com a chancela da editora Matéria-Prima. Trata-se de um livro a não perder, também porque situa o conceito de heroísmo num contexto histórico muito especial e porque nos revela o que foi a vida deste homem de trabalho que teve família abundante, que nunca conseguiu transformar a heroicidade em fonte de rendimento e que nem sequer logrou radicar-se no Brasil, onde tencionava instalar-se com a família, ganhar bem e ser feliz.
A sua heroicidade fez com que passassem a tratá-lo por Milhões. Recebeu condecorações e foi heroicizado pela República agonizante e depois pelo Estado Novo. Morreu no início dos anos 70 do século XX, à beira de completar 75 anos. Sobre ele publiquei, já este ano, um livro para crianças (ed. Pato Lógico/Imprensa Nacional-Casa da Moeda), que o recorda e homenageia, porque é na infância que se deve aprender a reconhecer e a admirar os heróis.
Recordá-lo é recordar a presença portuguesa na primeira guerra mundial, mas sobretudo sublinhar o papel dos heróis nas pátrias em crise. Em condições muito diversas, podemos hoje ser levados a pensar em Cristiano Ronaldo e na imensa onda de popularidade que o envolve no Mundial de Futebol no Brasil. Os povos inquietos e inseguros precisam de quem os ajude a erguer do chão enlameado a pesada bandeira da esperança. CR está bem vivo, rico e no auge das suas enormes capacidades desportivas e atléticas, Aníbal Milhões morreu pobre e esquecido quando Portugal não sabia como havia de se libertar do fantasma da guerra em África. Dois heróis, dois tempos diferentes, a mesma pátria atormentada.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4032 de 20 de Junho de 2014

