Os dramas da interioridade televisiva
Bernardo de Brito e Cunha
IMAGINEM – o que não será difícil para muitos portugueses que não vivem no favorecido litoral nacional – que se entra durante 15 dias no mundo da televisão digital terrestre. De repente, aquilo que para muitos é normal, mesmo que possuam apenas uma oferta básica de televisão por cabo, transforma-se numa coisa sem grande opção e sem fuga: cinco canais, dos quais quatro são os chamados “canais em sinal aberto” e o quinto essa coisa animada que dá pela sigla de ARTV. Que até poderia ter sido um canal útil, com Tecnoformas e Passos Coelho com problemas de memória: mas não, foram duas semanas com uma bela profusão de debates gravados.
QUEM SE VÊ de repente nestas condições televisivas não tem outro remédio: é ver o que o televisor tem para mostrar. E o que vi na SIC, numa semana em que estreava uma novela brasileira (galardoada com um Emmy, segundo a autopromoção) e terminavam duas, foi uma coisa quase inenarrável, um exercício de corte e costura sem nome. Entre as 21h30 e a 00h30, três horas, portanto, a estação conseguia este feito digno do Guinness: exibir cinco novelas cinco, sempre intercaladas pela inevitável publicidade, naturalmente. Foi pena que esta azáfama novelística tivesse ditado um fim mal tricotado e insosso à novela de Pedro Lopes, “Sol de Inverno”. Quando voltar a casa hei-de voltar a ver o último episódio, porque julgo que não vi bem o que ali se passou. De qualquer forma, parece-me que Pedro Lopes é bem melhor nas suas tramas do que Inês Gomes, que assina uma dessas novelas que estreou, de seu nome “Mar Salgado”. Ainda vamos na segunda semana e eu já não suporto ver a Margarida Vila-Nova: a coisa não promete, portanto…
MAS COMO DIZ o povo, quando Deus fecha uma porta abre sempre uma janela. Impossibilitado de fugir para um canal de filmes ou de séries, tive mesmo de ver o que havia naqueles quatro canais. E de repente, quando alguém naquela casa e naquela tarde mudou de canal para a RTP1, só pode ter sido inspiração ou então Deus a mostrar o caminho da janela. Sabia que Herman José ia apresentar um programa na RTP: duvido que se não se tivessem reunido as condições descritas acima me tivesse preocupado em o sintonizar. Teria fugido de Fátima Lopes, como sempre tento fazer, naturalmente. Mas ir ver o que iria fazer Herman ou em que estado ele estava… tenho dúvidas.
FELIZMENTE que alguém pegou no comando (comando, sim: o televisor só tinha cinco canais mas tinha comando, ora essa!) e sintonizou a RTP1. E, confesso, comecei por esperar uma coisa aborrecida, com algumas graças duvidosas, tanto ao jeito de Herman, e conversas com os seus amigos do costume. Nada de mais errado. Tinha conversas, tinha música, tinha graçolas à la Herman, tinha confecção de pratos culinários por convidados e pelo próprio Herman. Mas que também tinha uma enormidade de outras coisas. Que tem, por substância, por tela de fundo, aquilo que me parece ser o mais importante não só para quem está fechado numa casa, rodeado de chuva e trovoadas, mas para todos os que não vivem no favorecido litoral nacional – companhia. São três horas bem passadas, este “Há Tarde”. Um trocadilho meio tonto mas verdadeiro: ali temos, à tarde, a certeza de que há tarde pela frente. E, tudo o indica até agora, daquelas mesmo boas para o Inverno. Assim haja fôlego.
PARA AJUDAR a esta festa, Herman tem uma companhia, Vanessa Oliveira. Confesso que comecei por sorrir perante os seus “Oh meu Deus!” de virgem ofendida e puritana, sempre que Herman dizia uma qualquer frase para ele normalíssima, mas que ela achava que infringia a norma. E cheguei a pensar “Esta miúda não vai durar aqui”. Vai em duas semanas. E parece-me agora ser o contraponto perfeito para Herman, embora continue a corar e a tapar a cara com as mãos. E ainda por cima é um descanso, comparada com os gritos e gargalhadas de Fátima Lopes.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Há algum tempo que não vos falo de “Os Maias”, agora reduzidos a esse horário estranho de três tardes por semana. Se querem saber que reviravoltas aquele romance vai ter, apressem-se, que faltam umas cem páginas de livro passadas a imagens. Nunca escrevi isto: mas a cor que a série tem, os tons escuros em que foi filmada, são exactamente aqueles que imaginei quando li o livro pela primeira vez. E isso parece-me ser a prova de que alguém, muitos alguéns, no Brasil, a transportou com carinho para o ecrã. Para que depois a SIC, que perdeu completamente a altura da exibição (o centenário da morte do escritor), a viesse a encaixar entre o “Às 2 por 3” e a novela “Malhação”. Haja dó!»
(Esta crónica, por desejo expresso do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 4042/43 de 3 de Outubro de 2014.

