O Mercado de Produtores Directos de Sintra, que funciona desde a década de 50 na Estefânia, foi alvo de melhorias que, de acordo com muitos vendedores, não são suficientes para ultrapassar a “crise” no escoamento das suas frutas e hortaliças, entre outros produtos. Tudo o que é vendido neste mercado municipal é “cá da terra”, tanto de Sintra como de concelhos vizinhos (não são permitidos produtos oriundos de revenda) e a Câmara Municipal reconhece a importância cultural e económica dos mercados. No entanto, mais alterações parecem ter ficado por fazer neste mercado, cuja requalificação foi apresentada no dia 5 de Junho, numa festa dedicada ao morango. De Sintra, claro.
“Complicado” foi o adjectivo mais utilizado por quem vende no Mercado de Produtores Directos, no espaço exterior ao Mercado Municipal na Estefânia – Sintra, para definir o estado do seu negócio. Aqui, onde o aroma adocicado da fruta e a frescura das verduras sobressaem como pedaços do campo em plena vila de Sintra, persistem também os olhares entristecidos ou resignados de quem sempre retirou da terra viçosa de Sintra muitos produtos naturais, que apesar de expostos para venda uma manhã ou um dia inteiro, acabam por voltar quase todos para casa.
Conta Maria Domingas Reis, de Monte Arroio, em frente à sua banca colorida de pimentos, tomates e alface, que o negócio “está cada vez pior” e que “de dia para dia está tudo a fraquejar cada vez mais”. Exemplo disso é a análise desta vendedora com “muitos anos” de experiência que tem testemunhado a evolução do poder de compra, e que afirma num gracejo cabisbaixo: “Dantes vendia-se muito mais quantidade. Agora não vale a pena trazer, senão levamos de volta”.
De São João das Lampas, Terrugem, Assafora e outras áreas afastadas do reboliço citadino de Sintra, bem como de concelhos vizinhos, vêm vários produtores que no passado dia 5 de Junho viram requalificado o sítio onde se foram acostumando a promover e escoar os produtos da terra – apenas de produção própria, pois não são permitidos produtos fruto de revenda. As melhorias, segundo alguns com quem o JS teve oportunidade de conversar, não foram suficientes, porque os problemas parecem advir principalmente da falta de clientes, especialmente agora que o bom tempo não requer infra-estruturas resistentes.
De Mafra, concelho vizinho de Sintra, Odete Silva traz fruta da sua horta e ainda legumes variados. No entanto, os produtos são muitos para a quantidade de pessoas que os compram – “isto até dá vontade de rir, vem cá só meia dúzia de clientes!”.
Já há quem desista do negócio
“As pessoas andam à espera do mais barato e os supermercados são uma grande concorrência. Isto são produtos nossos, mas temos de pôr os preços para o mais barato, senão não compram”, explica Maria Domingas Reis.
Opinião diferente parece ter um dos poucos clientes que se encontram no mercado, que interrompe a sua atenta análise de um molho de grelos para confessar que na hora de comprar não olha ao preço: “Gosto mais de comprar aqui, é melhor e tem mais qualidade”.
Enquanto parte para uma banca vizinha, o JS muda também para o espaço de António Simões, que produz mel – que exibe orgulhosamente – na Terrugem. “Vendo aqui há cerca de dez anos”, conta “e os meus produtos são biológicos, não têm químicos”. Para além do mel, aquilo em que é mais “afreguesado” são as batatas, cebolas, alhos e morangos. Vende também framboesas, que escorrem doçura e captam o olhar de vários clientes que passam, assim como cenouras, feijões e frutos secos. Mesmo com a variedade de produtos e com o facto de a agricultura biológica estar muito em voga, o que este carteiro reformado conta parece coincidir com o que contam outros produtores – “isto está cada vez pior, está-se a vender muito mal”, afirma.
A corroborar a opinião generalizada de que o negócio não está nos seus melhores dias, está o desabafo de um outro vendedor, que preferiu não dar o seu nome: “A governar-me disto, não sou capaz de ganhar para comer”. O vendedor vai mais além, dizendo que vai deixar o negócio “daqui a um mês ou dois”, porque “os materiais estão cada vez mais caros e a gasolina também… em certos dias nem se leva dinheiro para casa”. “É uma miséria!”, exclama.
Produtores insatisfeitos com as mudanças
Apesar de se ter celebrado o “dia do morango” no dia 5 de Junho, no âmbito da apresentação das melhorias feitas a este mercado municipal – que funciona na Estefânia –, os produtores mostram-se insatisfeitos com a pouca procura por parte dos jovens, a pouca venda, em geral, e a falta de condições de trabalho. De facto, as 19 tendas que foram disponibilizadas pela Câmara Municipal de Sintra para melhorar as condições dos vendedores tornaram-se a principal queixa por parte destes. “Isto tem que se montar e desmontar. É preciso quatro pessoas, sozinhos nem pensar”, explica Luísa Alves, da Assafora.
Também Maria Domingas Reis adianta ao JS que considera que antes de terem sido colocadas as tendas, deviam ter sido consultados os cerca de 50 vendedores (distribuídos por três dias – terças, sextas e sábados) que ali trabalham. “Somos nós que aqui vendemos!”, exclama, afirmando também que as tendas são fracas e era preciso “um telhado fixo”, pois assim não seria necessária a montagem e desmontagem.
Da mesma opinião é Evangelina Anastácio, da Assafora, que vende naquele mercado há cerca de 40 anos: “É melhor do que o que estava, mas é complicado porque temos de armar e desarmar a tenda e é preciso umas quatro pessoas para fazer isso”. Além disso, “o tecido não é resistente” e o espaço, predefinido pela Câmara, ocupado pelas tendas “deixa muito intervalo de toldo a toldo”. A vendedora adianta também que com um espaço que é pago, mas “sem regalias nenhumas”, onde o estacionamento é também um problema e afasta as pessoas, torna-se “difícil” vender no mercado.
Produtos saloios podem criar mais postos de trabalho
A opinião generalizada é a que as grandes superfícies são uma concorrência de peso aos produtos da terra, neste caso aos produtos saloios. Evangelina Anastácio lamenta que “as pessoas recorram a essas casas” e que ao mercado só vão “pessoas mais idosas, reformados, clientes habituais”. “As pessoas novas pegam no carrinho e vão ao hipermercado!”, exclama ironicamente. Apesar disso, a produtora sublinha que tudo o que vende “é fresquinho e lavado à mão” – enquanto o diz, raspa a pele de uma cenoura e deixa escapar o seu cheiro. “Aquilo que eu trago para aqui é o mesmo que uso em casa”, conta.
Contudo, o aroma e a frescura não chegam para chamar mais jovens ao mercado, segundo Evangelina, e a vida do campo, que não lhe deixou tempo para frequentar a escola, “é muito dura”, porque o trabalho “nunca está feito: é preciso regar, é preciso mondar, apanham-se umas coisas, semeiam-se outras”. Por isso mesmo e apesar de conseguir fazer contas com uma facilidade aparente e de assinar o seu nome, considera que a vida do campo não é para o seu neto – prefere que ele estude e tenha uma “profissão melhor”.
Contudo, são essas as profissões que parecem não deixar muito tempo para as compras nos mercados, como salienta o vereador responsável pelos mercados municipais Baptista Alves. “Naturalmente pelas suas vidas, pelos seus ritmos, porque chegam dos empregos tarde, os jovens não têm tanto tempo para a confecção demorada que normalmente os produtos frescos exigem; têm interesse em produtos que sejam mais fáceis de confeccionar e utilizar”.
Nesse sentido, um dos objectivos “é permitir e incentivar a venda nos mercados municipais de produtos que vão de encontro às necessidades dos jovens”, mas ao mesmo tempo “que possam ter algum sabor e ligação com a nossa cultura gastronómica em Sintra, que é muito rica e que temos obrigação de preservar”, conclui o vereador.
Para além de promover os produtos de Sintra, salienta Baptista Alves ao JS, os mercados municipais são uma forma de “garantir postos de trabalho, até aumentar, e de prestar à população, principalmente à que tem menores recursos, um serviço de qualidade e a possibilidade de aquisição de bens de primeira necessidade a preços mais aceitáveis”. A maior parte desses bens são produtos saloios, como o morango, a maçã reineta, mel, entre outros que, segundo o vereador, precisam de ser “valorizados” pelos próprios sintrenses.
“Os mercados prestam um serviço importante e insubstituível”
Tanto do ponto de vista cultural como do ponto de vista económico, os mercados são uma forma de promover e valorizar os produtos de Sintra, de acordo com o vereador responsável, Baptista Alves. “Nós pensamos que os mercados prestam um serviço importante e insubstituível à população”, adianta ao JS.
As alterações feitas com a introdução de tendas iguais para todos os produtores são uma “experiência”, segundo Baptista Alves. “Com base na experiência do mercado da Estefânia podemos vir a intervir noutros mercados e até nas próprias feiras”, explica, “e melhorar as condições destes produtores directos”.
Face às queixas relativamente à utilização das tendas, o vereador adianta que estas já tinham sido adquiridas no mandato anterior, mas que vai “analisar” a questão, especialmente “o tempo de montagem”. Quando a outros problemas, Baptista Alves admite que apesar de o “mercado ter sido objecto de uma grande intervenção por parte da Câmara há relativamente pouco tempo, não significa que os problemas estejam todos resolvidos”.
Entretanto, o vereador adianta que o problema do estacionamento poderá estar perto de ser resolvido, com as obras na Sintra Garagem, edifício que poderá “melhorar o estacionamento na zona da Portela”, a começarem “em breve”, o que é importante “para todo o estacionamento na zona do mercado de forma a permitir a mesma comodidade que o utente teria numa superfície comercial”.






É este o estado da agricultura e dos agricultores em todo o país. Mas há esperança, com a adesão à agricultura biológica. O problema é a falta de apoios a novos agricultores e a expansaõ dos hipermercados e outros que tais. A concorrência é desleal para com quem sempre trabalhou na terra mas não tem meios de modernizar, progredir e não tem quem os promova.
E por isso que os mercados são tão importantes.
“Aqui, onde o aroma adocicado da fruta e a frescura das verduras sobressaem como pedaços do campo em plena vila de Sintra, persistem também os olhares entristecidos ou resignados”
Arrisco dizer que esta notícia é “deliciosa” como o morango cá de Sintra!
Tristão
Sintra
Caro Jornal de Sintra
Muito boa notícia. Infelizmente no mundo de hoje, as pessoas pensam primeiro em grandes prédios antes de pensarem em formar raízes.
Da terra, da NOSSA terra saem muitos e bons produtos que os jovens desconhecem porque compram outros no supermercado, bonitinhos porque vêem de estufas ou já lavadinhos e cortadinhos.
Infelizmente é assim porque não há uma cultura de promoção dos produtos da terra.
Os agricultores são o futuro, porque enquanto os edifícios ruem e os computadores se estragam e a electricidade pode falhar, a terra nunca nos faltou e dela podemos viver.
Numa soiciedade em que tudo está à distância de um “clic” trabalhar com as mãos e tê-las calejadas vai ser, um dia, um grande tesouro.
Parabéns pela notícia!
Marcos Quintana
Já fazia falta uma reportagem assim. Sobre as pessoas da terra, os produtos da terra, os verdadeiros problemas de quem é cá da terra, produz para a terra e colhe poucos frutos.
Gostei muito. Uma reportagem que tem conteúdo e conta uma boa história, o que é muito raro de se ver hoje em dia!
Bom trabalho.
Mafalda Santos