Semanário Regionalista Independente
Segunda-feira Agosto 8th 2022

“BBC – As Crónicas de TV”

Mistérios das televisões

Bernardo de Brito e Cunha

HÁ MUITOS ANOS que o meu filho deixou de pertencer ao grupo infanto-juvenil. Os seus interesses, naturalmente, mudaram. Mas há bastantes anos, quando fazia parte desse grupo, julgo que as programações de Natal eram uma espécie de bênção e, porque não dizê-lo, um descanso. Recordemos que as privadas apareceram nos anos 90 e vieram colaborar nessas programações: eram muitos desenhos animados, muitos filmes, muito circo, etc. Sem esquecer o Natal dos hospitais e, a culminar uma época como esta, o Concerto de Ano Novo, transmitido de Viena. Tudo isto, com o tempo, se foi agravando: por um lado, porque a época do Natal, por imperativos económicos, tem agora uma pré-época que começa logo a seguir a Setembro; e por outro porque são cada vez mais as crianças que é preciso entreter em casa durante as férias do Natal. No último sábado ou domingo, já nem sei bem, mas seguramente da parte da manhã, procurei em vão uma qualquer coisa que se visse. Caramba!, nem o “Inspector Max” ou a “BBC Terra” encontrei! E tudo o que encontrei era abaixo do Inspector – e devia estar debaixo da terra.

DEIXO AQUI O AVISO: o “Natal dos Hospitais”, o clássico, começou ontem na RTP. Mas atenção às imitações e congéneres. Ora para ajudar a ala pediátrica de não sei de onde, ora para fazer reverter parte da venda disto ou daquilo para instituições carenciadas, a verdade é que sob a forma de ave ou paquiderme, com ou sem membros da família Carreira, muitos serão os espetáculos que nos esperam. E nem todos serão bons. Para não falar nos sorteios mascarados de “cabaz de natal” e que não passam de um concurso para cuja inscrição terá de fazer uma chamada telefónica de valor acrescentado – e quantas mais fizer, dizem-nos vozes melífluas, mais possibilidades terá de ganhar… Já lá vai o tempo em que uma ou outra estação fazia um programa de variedades com a “prata da casa”, isto é, com aqueles que nos habituámos a ver a apresentar programas ou tele jornais. Portanto muito cuidado ao premir o comando do televisor nesta época que devia ser de fraternidade: é que esse gesto pode prejudicar gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam. Cuidado!

AÍ HÁ COISA DE UM MÊS teci aqui algumas loas quanto à aparição de um canal novo, exclusivo da Zon, a Globo. Era gratuito, ao contrário da outra “TV Globo”, embora justificadamente: a gratuita, como é natural, não tem a nata que encontramos na que é paga. Mas tinha, mesmo assim, algumas propostas e alternativas que me pareceram extremamente curiosas. Já referi algumas: poder rever algumas novelas que foram sucesso e que tinham um cuidado de texto que vai sendo difícil encontrar hoje, bem como outros programas que não eram reprises. Entre esses contava-se uma novela (nem sei bem se o seria: mas, pelo menos seria uma minissérie) que me chamou a atenção. Primeiro pelo título, “Brado Retumbante”, e por se tratar de uma novela/minissérie que era uma história política – o que não é vulgar. No primeiro episódio, o Presidente do Brasil é assassinado: e enquanto se investiga quem matou, o vice-presidente assume o resto do mandato. Este vice-presidente que perde de repente o “vice” tem um problema pessoal: um filho teoricamente homossexual (teoricamente porque nunca teve uma relação na vida) e que foi expulso pelo pai, do país, decidindo regressar ao Brasil com o pai na Presidência. Com este breve resumo, convém que saibam que chegámos ao fim do quarto episódio. A informação do canal mostrava a programação de, pelo menos, mais dois episódios – mas a verdade é que não foram exibidos. E assim fiquei sem saber como terminava aquela história que se adivinhava interessante… Ah! O título, que achei estranho, descobri de onde vinha quando, completamente por acaso, ouvi alguém cantar o hino brasileiro: o “brado retumbante” faz parte da letra do hino e refere-se ao grito do Ipiranga…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Às vezes dou comigo a pensar no que seria se, por qualquer bambúrrio do azar – ou da sorte, melhor dizendo – um dia viesse em que ninguém passasse as novelas do costume. Nesse dia, caso ele existisse, muita gente cairia para o lado, completamente desamparada: faltava-lhe a “New Wave”, “Tudo por Amor”, “Marisol”, “Não Há Pai!”, o “Anjo Selvagem”, o “Amanhecer”. Quem sabe mesmo se a ausência de “Vidas Reais” lhes provocaria um abalo nervoso de efeitos traumáticos irreversíveis. Para muita gente, aconteceria assim: mas há os outros, os que como eu ficaram um dia em casa, e que adorariam essa mudança. Essa possibilidade de ligarem a sua televisão e ela ser, finalmente, mesmo que por apenas um dia, diferente. Que não nos trouxesse as histórias da vida irreal – sem nos trazer as da novela da vida real. Seria bom que existisse essa alternativa: não teria muitos “clientes”, mas serviria para alguma coisa. É, de resto, por isso, que a RTP 2 é aquilo que é: pequenina, quase sem clientela que se veja, mas livre destas coisas, destas historietas de embalar não se sabe bem que espécie de pessoas.»

(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3961 de 14-12-2012

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