Semanário Regionalista Independente
Quarta-feira Junho 10th 2026

A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DA CULTURA SEGUNDO O MODELO IRLANDÊS

José Jorge Letria

Participei recentemente numa assembleia geral de sociedades de autores de todo o mundo, em Dublin, tendo a intervenção inaugural estado a cargo de Jimmy Deenihan, ministro do Património e da Herança Cultural, que eu já ouvira em Abril do ano passado, na mesma capital. Foram palavras sábias, que vieram confirmar a importância da criação cultural e artística no complexo processo de recuperação de economias nacionais em crise.
Em Abril do ano passado, este governante, que foi na juventude um famoso jogador de futebol e de râguebi, antes de enveredar por uma carreira política e cívica de mérito, afirmou que o trabalho dos agentes culturais é decisivo para criar emprego, para atrair turistas, para revitalizar a restauração e a hotelaria e para fortalecer o ânimo e a consciência nacional em contexto de crise. Nessa altura ainda a troika não tinha entrado em Portugal, mas a Irlanda já se encontrava a braços com ela, tendo mesmo o governo tomado a decisão estratégica de colocar a tutela dos assuntos culturais ao nível de ministério, exactamente ao contrário do que aconteceu em Portugal com o actual governo.
Nessa altura, Jimmy Deenihan apelou aos autores e aos artistas para não emigrarem, lembrou que Dublin é uma das quatro capitais mundiais da literatura, por decisão da Unesco, e assegurou que tudo iria ser feito para que a produção cultural conseguisse demonstrar a sua importância estratégica no quadro da resposta nacional à crise. Agora que voltei a ouvi-lo, constatei que o essencial do projecto está a ser cumprido: mais de 65 % dos turistas que demandam o país têm uma assumida motivação cultural, os festivais de literatura e outros, de iniciativa local e nacional, continuam a dar um sinal da notável vitalidade do país em termos culturais e, por outro lado, apostou-se na criação da figura do “embaixador cultural da Irlanda”, função confiada ao conhecido actor de cinema Gabriel Byrne. Por outro lado, o ministro deixou claro que o seu governo tudo fará no sentido de que a nova Lei da Cópia Privada, de que, em Portugal, nem sequer há notícias, em circunstância alguma irá desfavorecer os criadores culturais.
Jimmy Deenihan foi aplaudido por dezenas de dirigentes de sociedades de autores dos vários continentes, para quem as suas palavras e a sua presença representaram uma forma de respeito e de capacidade concretizadora em relação à vida cultural do país e aos seus agentes, com os criadores intelectuais à cabeça.
No essencial, o que o ministro irlandês foi dizer, enquanto anfitrião de uma grande assembleia internacional, foi que os decisores políticos têm o dever de conferir à cultura um papel estratégico na vida das nações, especialmente quando elas enfrentam graves crises estruturais, e que não o fazer é um erro clamoroso cujas consequências são de todo imprevisíveis.
Dar notícia destas intenções e acções é uma forma de demonstrar publicamente, neste país de presente sombrio e futuro mais do que incerto, que os escritores, os músicos, os dramaturgos, os artistas plásticos e os cineastas entre outros têm um importante papel a desempenhar, também no plano económico e social, mas sobretudo na criação de uma dinâmica de confiança e de coesão, que é absolutamente essencial para que novos horizontes se perfilem ante os olhos de quem não aceita desistir ou pactuar com o silêncio cúmplice e acredita que a imagem internacional e o prestígio do país não podem depender apenas dos resultados desportivos e do investimento que neles é feito, seja qual for o desfecho final.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 3 da edição n.º 3940 de 15 de Junho de 2012

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