Passos em falso
Bernardo de Brito e Cunha
NÃO ME TEM SIDO possível escapar a mais esta invenção que dá pelo nome de “7 Maravilhas – Praias de Portugal”. É mais uma, a que certamente serão acrescentadas outras, no futuro, porque ainda nos falta eleger as “7 Melhores Sardinhas Assadas” e mais algumas do mesmo quilate. Haja paciência. Entretanto o certame vai calcorreando as 21 praias nomeadas com muitas variedades, com os presidentes das câmaras ou juntas de freguesia – em suma, uma chatice sem nome. Parece-me uma invenção da RTP para encher programação e nada mais. No entanto, nem é isso o que mais me aborrece. O que mais me maça é que este programa (ou série de programas) tem patrocinadores, como acontece com quase tudo hoje em dia. E, sobretudo, o facto de um desses patrocinadores (ou “parceiros”, conforme designação oficial), que dá pelo nome de “Costa Alentejana” e cujo nome aparece em tudo o que é logótipo, poder ser um “parceiro” muito isento, naturalmente, mas até que ponto essa parceria/patrocínio poderá influenciar resultados – uma vez que a costa alentejana tem quatro praias entre as finalistas? A saber, Troia-Mar, Carvalhal, Vila Nova de Milfontes e Zambujeira do Mar… Parece-me ter sido descuidado, por parte da organização de mais esta eleição, o ter aceitado este parceiro ou patrocinador. No mínimo.
NO MOMENTO EM QUE escrevo, o país abandonou as preocupações com a crise e entregou-se, de alma e coração, ao Euro 2012. Também pelo facto de a nossa seleção lá estar? Também – embora o primeiro resultado tenha sido tudo menos brilhante e o segundo ainda eu lhe ignorar o desfecho. Mas, sobretudo, porque em termos de televisão um cidadão não ter para onde se voltar. Os três canais abertos (que a RTP2 se deixa ficar fora destas guerras) transmitem uma boa quantidade de jogos, a um ritmo diário, não deixando grande escolha. Isto sem contar com o “Diário do Euro”, o Lanche da Seleção, os Golos do Dia, o Jantar da Seleção, e uma coisa muito próxima de O Vitinho da Seleção. Sem esquecer, naturalmente, os bastidores de tudo e mais alguma coisa, as mais das vezes a mostrarem coisa nenhuma. Pedro Passos Coelho agradece, dado que enquanto a população estiver entretida com o Euro, não dará grande atenção à crise e aos preços. Mas devia: porque em Espanha, país que recebe a maioria das nossas exportações, a coisa não está grande coisa. São muitos milhares de milhão de euros para salvar o sistema bancário, mas ninguém acredita que esse auxílio não tenha sido o princípio de uma ajuda ao próprio país. E a seguir a Espanha virá a Itália, para a qual, dizem, já não haverá dinheiro suficiente. E está é toda a gente preocupada em saber se, das eleições do próximo domingo na Grécia, sairá um governo que queira pagar ou renegociar a dívida. O partido melhor colocado, segundo as sondagens, o Syriza, já disse o que quer fazer: não sair do Euro, mas que a Europa não abuse. E enquanto isso, um deputado que não o chegou a ser, Ilia Kasidiaris, do partido de extrema-direita Krysi Avgi (uma coisa bastante neonazi e fascistóide, com saudações de braço estendido e tudo) deu-se ao luxo de agredir em direto, num programa de televisão, as deputadas Liana Kanelli, do Partido Comunista, e Rena Dourou, eleita pelo Syriza. Surpreendidos? Claro que não. A grande surpresa vem do facto de Ilia Kasidiaris, que andou três dias a monte depois de sair do estúdio de televisão, se ter apresentado: arrependido? Não. Para processar as duas deputadas agredidas, por o terem insultado primeiro…
UMA PALAVRA para o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal, um dos poucos príncipes da igreja que tenta pôr em prática os ensinamentos dos Evangelhos. E foi nessa ótica que criticou as declarações de Passos Coelho – que, no balanço de um ano de governo, agradeceu a paciência dos portugueses em tempos de austeridade. Ao que D. Januário respondeu: “E no fim ainda aparece um senhor, que pelos vistos ocupa as funções de primeiro-ministro, dizendo um obrigado à profunda resignação de um povo dócil e tão bem amestrado que até merecia estar no Jardim Zoológico. Apetecia-me dizer: vamos todos para a rua. Não vamos fazer tumultos, vamos fazer democracia.”
HÁ 10 ANOS ESCREVIA
«E, de repente, as pessoas aperceberam-se de que tinham ali [na RTP] um património: de gente, de vozes, de caras, de imagens, de sons que fazem parte da nossa vida. E quando a RTP inventou o excelente slogan “a RTP faz parte da sua vida”, limitou-se a pôr em palavras aquilo que é a sua realidade – e foi por isso que o slogan resultou. E creio que a grande maioria das pessoas deve, de repente, ter percebido que corria o risco de ver esse património a desaparecer, a ser dividido pelas restantes estações, assim como quem divide um livro a meio, uma coisa sem sentido, taliónica, quase, mas idiota. E agarram-se agora a esse património que elas próprias ajudaram e pagaram para construir, como quem defende uma coisa sua, que deu trabalho, e que é de facto sua – embora só num momento de perigo se tenham dado conta disso. Como, de resto, acontece quase sempre.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, página 7 da edição n.º 3940 de 15 de Junho de 2012

