Nepotismo televisivo e erro de simpatia
Bernardo de Brito e Cunha
ACHO FANTÁSTICO como ainda me surpreendo com as coisas que vejo na televisão. O programa que a SIC transmite aos domingos à noite, “Vale Tudo”, com João Manzarra a apresentar, é uma coisa que pretende ser entretenimento sem grandes pretensões. Baseado fundamentalmente em quadros de humor, depende em grande percentagem do talento e capacidades individuais dos convidados. Ainda não percebi bem, mas dá-me ideia que há uns que são mais ou menos fixos e outros que aparecem num ou noutro programa. São fundamentalmente atores e apresentadores de televisão, daí que no último domingo tenha surgido Júlia Pinheiro que, como se sabe, tem responsabilidades diretivas no grupo Impresa e, consequentemente, na SIC. O que achei mais estranho foi que tivesse levado o filho, Rui Pêgo (Jr) que é praticamente um desconhecido. É verdade que foi apresentador do “Curto Circuito” na SIC Radical durante um curto espaço de tempo, mas quem diabo via o “Curto Circuito” e quem sabe quem é Rui Pêgo, o Júnior? E depois isto dá uma ideia, se calhar errada mas totalmente culpa de Júlia, de uma espécie de nepotismo televisivo – que podia ser perfeitamente evitado, até porque o rapaz não se saiu lá grande coisa no programa…
CONTINUANDO NA SIC, confesso que não entendo as razões que fazem com que a novela “Avenida Brasil” (que, como já aqui escrevi, é a melhor de todas as que estão em exibição, sejam nacionais ou brasileiras) continue a não fazer parte dos cinco programas mais vistos do dia – ou, na circunstância, da noite. Sempre imaginei que a culpa era da ordem por que eram exibidas as quatro novelas da SIC (sim, quatro, para os mais distraídos): “Dancin’ Days”, a versão portuguesa e que ocupa regularmente o primeiro lugar do Top 5, “Gabriela”, “Avenida Brasil” e “Páginas da Vida”. O terceiro lugar na lista de exibição, pensava eu, era o responsável por esse estado de coisas: mas com o final de “Gabriela”, “Avenida Brasil” adiantou-se mais ou menos uma hora e, portanto, já nem se podia dizer “ah, passava tarde e tal…”. E eu não entendo que se prefira ver essa grande atriz que dá pelo nome de Soraia Chaves ou o canastrão Ricardo Carriço em vez de aprender o que é representar com Débora Falabella, Murilo Benício ou Adriana Esteves. Mais do que não entender é ficar perplexo. Mas diga-se, em abono da verdade, que a SIC lá conseguiu dar um golpe de rins e passar “Dancin’ Days” também ao domingo, para combater a concorrência (cada vez mais fraquinha) da “Casa dos Segredos”. Mas demorou a perceber o que tinha de fazer…
MIGUEL RELVAS é sempre um número a não perder. Ele aparece no ecrã e alguma coisa irá acontecer, portanto convém estar atento ao homem. E gostei especialmente dele quando apareceu no “Telejornal” da RTP a dizer que a privatização da estação pública tinha sido adiada. O que achei fascinante não foi o facto de Relvas ter jurado a pés juntos que a privatização tinha como limite o final de 2012: não, não foi. O que achei deslumbrante foi que tenha dito a José Rodrigues dos Santos que a RTP “tem de ser vista e ouvista”. Eu sei que é uma escorregadela que acontece, até, a muito boa gente, um lapsus linguae bastante corrente, por se tratar de um erro de simpatia. O que me surpreende é que Relvas, que é um homem com estudos – e não só estudos, ele também tem equivalências e não são poucas – não se tenha apressado a corrigir o lapso. Estaria, certamente, preocupado com outras coisas: nomeadamente devia estar a pensar “qual é o meu papel agora no governo?”, uma vez que a privatização da RTP era a sua última grande tarefa. Agora que lhe resta? Casar e prolongar indefinidamente a licença de casamento?
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Teria Carlos Cruz necessidade de aceitar os dois projectos de Ediberto Lima? Fica a dúvida – consubstanciada no último sábado com a notícia de que o apresentador se recusara a apresentar “O Crime Não Compensa”. Assim sendo, esperei para ver o que teria o programa de tão fantástico para que Carlos Cruz tivesse afirmado recentemente que a única “margem de manobra para recusar um programa da SIC”, com a qual tem contrato até Agosto próximo, seria considerá-lo “prejudicial” à sua “imagem profissional”. Aparentemente foi aquilo que invocou.
Mas depois de ter visto, esta terça-feira, José Figueiras avançar para o lugar de apresentador deixado em vago – aqui está outro candidato a “bombeiro de serviço”… – no programa “O Crime Não Compensa”, fiquei com algumas dúvidas em relação a qual dos programas deveria Carlos Cruz ter invocado o prejuízo da sua imagem. (…) Pior mesmo foi o programa “Boatos”, em que intervieram, por exemplo, Roberto Leal (a propósito do boato posto a correr de que pertencia e exercia actividades para a IURD), Lili Caneças e até o próprio Ediberto Lima, por ter corrido um boato de que tinha morrido e fugido para o Brasil (não por esta ordem, claro), ou ainda a cantora Nucha, que teria tido um caso com Roberto Leal – e com mulheres.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3966 de 1 de Fevereiro de 2013.

