José Jorge Letria
Adolph Hitler ascendeu ao poder há 80 anos, num dia 30 de Janeiro, e há 68 anos, a 27 de Janeiro, o Exército Vermelho libertou o campo de concentração de Auschwitz, onde foram assassinados mais de um milhão de judeus e centenas de milhares de ciganos, prisioneiros políticos e testemunhas de Jeová, entre outros. Parece que passou uma eternidade desde que o mal absoluto se converteu em poder de Estado, mas, bem vistas as coisas, no milenar ciclo da História, tudo aconteceu ainda ontem, fazendo ainda parte do número dos vivos bastantes sobreviventes do terror nazi.
Ainda hoje psicanalistas, sociólogos, psicólogos, politólogos e muitos outros especialistas continuam a formular esta pergunta elementar e dramática: como foi possível que tudo isso tivesse acontecido, no âmbito de um conflito mundial que custou a vida a mais de 60 milhões de pessoas, das quais 20 milhões só na União Soviética ?
Ouvindo declarações recentes do responsável de um dos museus dedicados ao Holocausto, não pude deixar de me interrogar sobre esta questão: o mais impressionante no quotidiano dos guardas e carrascos de Auschwitz, de Treblinka ou do Sobibor não era a sua desumanidade, mas sim os sinais de humanidade no seu quotidiano, pois eram, aparentemente, pessoas normais que comiam, bebiam, riam, choravam, gostavam de música, tinham mulheres e filhos e faziam planos para o futuro, certamente com a convicção de que o Reich hitleriano duraria os tais mil anos prometidos pelos líderes nazis. As fotografias deles que chegaram até à actualidade são testemunho dessa desnorteante normalidade.
Como foi possível que homens e mulheres com percursos aparentemente comuns se tenham transformado nos mais terríveis agentes de genocídio de toda a História, levando para as câmaras de gás e para os crematórios milhões de homens, mulheres, crianças e idosos, judeus e não judeus, de uma forma metódica, fria, sem qualquer emotividade e com uma lógica industrial, como se estivessem a garantir o funcionamento de uma fábrica essencial para o esforço de guerra? As respostas continuam a não ser suficientes e satisfatórias, e ainda menos o são quando ouvimos os testemunhos de alguns dos condenados e depois executados em Nuremberga, para já não falar do que disse Eichmann, o grande organizador da Solução Final, quando foi interrogado em Israel antes de ser julgado e enforcado. É esta lógica que ultrapassa toda a racionalidade que teima em escapar-nos.
O mal absoluto esteve quase a imperar no mundo e tudo isto aconteceu há algumas décadas, durante apenas 12 anos, ou seja entre 1933 e 1945. Imagino que as novas gerações de alemães ainda lidem dificilmente com este arrepiante legado histórico que, quer queiram quer não, faz parte da sua memória colectiva e da história contemporânea do seu país. E será bom não esquecer que mais de 100 mil alemães colaboraram com a “indústria” do Holocausto, reciclando e fazendo reentrar no circuito comercial “materiais” como os cabelos humanos, as armações de óculos ou mesmo as próteses dentárias “confiscados” nos campos de morte. Quer isto dizer que em cada família alemã terá havido nem que seja um primo afastado a colaborar com o terror na sua expressão máxima.
Mas também não podemos esquecer que nas eleições alemãs de 1933 houve milhões de votos comunistas, sociais-democratas e democratas-cristãos. Muitos desses eleitores morreram nos campos de concentração, partiram para o exílio ou foram executados nas ruas, nas prisões ou nas suas casas. Portanto, deverá resistir-se à tentação de generalizar. O problema é que a esmagadora maioria dos alemães depois se tornou reconhecidamente conivente com o terror nazi, quase até ao colapso final do regime.
Tomando de empréstimo o título de um famoso filme do sueco Ingmar Bergman, o “ovo da serpente” era poderoso e nada nos garante que tenha sido definitivamente erradicado.
Esta reflexão força-nos a pensar em duas questões fundamentais. Primeira: se tudo isto aconteceu há menos de um século, ninguém nos pode garantir que não possam vir a surgir, no futuro, formas extremas de totalitarismo que lancem de novo a Europa e o mundo no domínio das trevas. Segunda: mesmo sem precisar de divisões Panzer ou de formas de opressão militar, o poder político alemão conseguiu um domínio efectivo sobre a Europa que nem Napoleão nem Hitler lograram alcançar. Tudo isto dá muito que pensar, também sobre o papel que a economia e os mercados desregulados podem desempenhar quando se convertem em verdadeiros e poderosos instrumentos de opressão e de destruição de soberanias nacionais.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3966 de 1 de Fevereiro de 2013.

