Semanário Regionalista Independente
Sábado Junho 13th 2026

CINEMA, HISTÓRIA E O LEGADO DE LINCOLN

José Jorge

Infelizmente, Portugal não tem dinheiro para apoiar o cinema. O pouco que vai restando é para salvar bancos do colapso final, mas à custa do brutal sacrifício dos contribuintes, sobretudo dos mais desfavorecidos. Talvez um dia, quando a situação mudar, situações como a do BNP e da camarilha que o colocou na situação que hoje envergonha o país perante os Portugueses e perante o estrangeiro venham a ser temas de filmes e de obras de ficção narrativa, pois haverá sempre muito para contar e para meditar, a partir daquilo que é narrado.
É nos momentos de crise aguda que as pessoas tendem a reencontrar-se com a História e como os seus legados moral, político e social. É normal que assim aconteça, sobretudo quando a nossa própria soberania é posta em causa.
Antes do 25 de Abril, peças de teatro como “Felizmente Há Luar”, de Luís de Sttau Monteiro, “O Render dos Heróis”, de José Cardoso Pires”, “O Judeu”, de Bernardo Santareno, ou “O Motim”, de Miguel Franco, permitiram a companhias de teatro profissionais e amadoras projectarem para o futuro as reflexões suscitadas pela leitura de factos do passado.
Por outro lado, escritores como Agustina Bessa-Luís, Fernando Campos e José Saramago deram aos romances de temática histórica uma dignidade que continua a responsabilizar quem hoje se aventura por estes caminhos, sendo de destacar, entre outros, o notável percurso de Miguel Real, não só como ficcionista, mas também como ensaísta e pensador.
E dá-me para imaginar os grandes filmes que, por certo, poderiam nascer de alguns destes livros, se, porventura, houvesse dinheiro e vontade. Como se sabe, fazer cinema, mesmo com as novas tecnologias, continua a ser muito caro, e mais caro ainda é o cinema que implica reconstituição histórica com o máximo respeito pelos ambientes e guarda-roupas de época. Restam-nos, pois, os grandes dramas e tragédias do presente, e todos sabemos que a esse nível não falta assunto, mesmo com a profusão de sangue e lágrimas que ajuda a vender jornais e a manter audiências televisivas.
Vêm também estas considerações a propósito do filme “Lincoln”, de Steven Spielberg, mestre reconhecido em quase todo o tipo de filmes, mas muito particularmente nos de temática histórica, com destaque para obras-primas como “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”, mesmo tendo em conta que se trata de História contemporânea, tão recente que por pouco não chegámos a vivê-la.
Spielberg teve talento de sobra, meios materiais e grandes actores para narrar os derradeiros quatro meses de vida de um grande Presidente americano de forma a prender a atenção do espectador e levá-lo a interessar-se pela política, muito mais como arte do que como ciência, a um nível que nada tem a ver com as contas de mercearia de uma gestão medíocre, subserviente e tantas vezes mentirosa como aquela que caracteriza a actual governação. Falo da portuguesa, porque da de Barack Obama não sei o suficiente e porque acredito que este segundo mandato lhe permitirá ser fiel às grandes promessas de fundo que o levaram duas vezes ao poder. E que não lhe doam as mãos, se for capaz, quando se tratar de encurtar a trela e de pôr na ordem os cães de fila do capitalismo selvagem que desencadeou a crise mundial a partir de 2008.
“Lincoln” confronta-nos com o peso e a força dos ideais em política, com a capacidade que uma liderança poderosa tem de mudar a história de um país e de deixar uma funda marca de civilização e ainda com a grandeza da História quando a observamos à distância, já sem medo ou preconceito. Ao decidir acabar com a escravatura, acontecesse o que acontecesse, projecto político em que Portugal conseguiu situar-se entre as nações pioneiras, Lincoln demonstrou que, fazer política, não é só prever e antecipar. É acima de tudo ter a coragem de tomar grandes decisões, em nome do povo, do futuro e do bem colectivo, mesmo que isso tenho um preço de sangue a ser pago e esse preço possa ser pago, como aconteceu com aquelee Presidente, com a perda da própria vida.
Olhamos à nossa volta, observamos os líderes políticos domésticos e europeus da actualidade e percebemos que a História contemporânea perdeu grandeza, profundidade e credibilidade. Por isso, a maioria deles não merece sequer uma curtíssima metragem a preto e branco. E já seria generosidade a mais.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3967 de 8 de fevereiro de 2013

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