Noites de domingo
Bernardo de Brito e Cunha
DESDE A ESTREIA da nova grelha de programas que a RTP cometeu, a meu ver, um erro crasso. As audiências do programa “Prós e Contras” há muito que já não eram aquilo que um dia tinham sido (e com tendência para continuarem a diminuir) mas o facto de o terem mudado das segundas-feiras para as noites de domingo deve ter sido catastrófico – e isto é para não falar em machadada final. É certo que antes do programa passa aquilo que, com o nome de “Odisseia”, poderia ser um caso muito sério de candidato “ao” programa das noites de domingo – fosse ele bem divulgado, etc, etc – mas que, como isso não acontece, tenderá a diluir-se na programação geral. Para mais, o “Prós e Contras” estava ali tão sossegadinho às segundas, dia em que não se passa grande coisa nos restantes canais, para que foram mudá-lo de sítio e colocá-lo num outro dia em que a concorrência é feroz? É quase o mesmo que transmiti-lo no mesmo horário de um jogo do Benfica. Teria sido mais fácil – será que Alberto da Ponte terá levado isto em linha de conta? – dar um baraço a Fátima Campos Ferreira e apontar-lhe “a trave de algum desvão” da Marechal Gomes da Costa.
ACONTECE QUE O DESNORTE na SIC tem ajudado a concorrência. Por um lado, como aqui referi, levou uma eternidade a perceber que podia colocar o programa mais visto de todas as noites também ao domingo, como se tivesse receio de “queimar” alguns episódios contra a “Casa dos Segredos”… A “Casa” já não deu os frutos de antigamente – se for um sinal de inteligência do público até se aplaude – mas devia ter percebido que um programa do estilo de “Vale Tudo” (e ainda por cima apresentado por João Manzarra) não teria grandes possibilidades, mesmo tendo a “ampará-lo” o tal episódio especial de “Dancin’ Days”. Falta na SIC alguma imaginação, algum golpe para dar a volta às coisas. Mas não: parece que o constante Top 1 de “Dancin’ Days” lhe chega, pouco fazendo para promover “Avenida Brasil”, a melhor de todas as três ou quatro novelas com que diariamente faz uma entremeada de “Jornal da Noite”.
JÁ A TVI não se poupa a esforços. E não hesita em promover os seus produtos até à exaustão – ia mesmo a escrever ad nauseam… É certo que a sua novela da noite, “Caminhos Cruzados”, ainda recente, não arrancou bem e não consegue destronar “Dancin’ Days”, mas não é por isso que não há programa da manhã ou da tarde em que não apareça um (ou mais) ator do elenco. É promoção: cansativa, é certo, mas quando se quer impor um programa não se pode estar com esquisitices e pruridos. Até no recentemente estreado “A Tua Cara Não Me É Estranha”, já em terceira edição, lá apareceu uma figura extra programa: “Liliane Marise”, que é como quem diz Maria João Bastos em versão pimba que, note-se, ainda nem sequer apareceu na novela… Mas aquela cantora vai marcar a novela, quanto mais não seja com frases como “o meu público está sebento por me ver”… E embora “A Tua Cara…” não tenha, desta vez, tantos nomes como os que anteriormente garantiram grandes noites de espetáculo naquele espaço, não vai ter grandes problemas em se impor à (fraca) concorrência. Pareceram-me foi de mau gosto as piadas constantes ao “plano inclinado” do programa de Manzarra – que voltou a ser usado para mostrar a audiência do espetáculo – mas isso é uma coisa a que já estamos habituados por parte da TVI.
AINDA A TEMPO uma palavra para a RTP e de que me tenho esquecido: a coisa mais notável da nova grelha é, sem dúvida, “O Preço Certo” com Fernando Mendes. Porque quem tem aquele programa – e respetivo apresentador – só se for completamente tolo os retira da sua programação.
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Mas a verdade é que o “Escândalos e Boatos” a que assistimos na última terça-feira foi uma simples sombra do que tinha sido o programa original. Um programa desta natureza não se pode fazer com a prata da casa, isto é, não se pode reunir meia dúzia de concorrentes do “MasterPlan” e cá vai disto que a festa está feita. Não está – e não está porque não é disto que o público está à espera. É que “escândalos” e “boatos” são coisas que acontecem (ou só têm dimensão qualitativa) a pessoas conhecidas, a figuras públicas. Vão-me buscar aquela meia dúzia de concorrentes do “Master” e tecem-se grandes considerações porque uma revista escreveu isto e uma outra escreveu aquilo? Ora tenham dó! E querem que acreditemos que o Miguel, que se fazia homofóbico, agora venha dizer que não? E que a Sandra afinal não roubava, como não sei quem publicou? E que o outro, e a outra, e a outra, etc., etc. e tal? Por amor de Deus: o problema é que isto não interessa a ninguém.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3967 de 8 de fevereiro de 2013

