José Jorge Letria
Tendem os grandes criadores, e em particular os escritores, a fazer longas “travessias do deserto” depois a morte os levar. Foi assim com muitos dos nossos maiores, e vai continuar a ser, porque ninguém consegue prever ou controlar os ciclos da moda e porque, na actualidade, a redescoberta passa pela acção da universidade e dos “media”, com opções raramente coincidentes. Assim nascem os períodos de esquecimento, de apagamento e de subalternização nos programas escolares e editoriais. Uma das vítimas deste fenómeno de grande complexidade é Natália Correia, nascida há 90 anos, em S. Miguel, Açores, num dia 13 de Setembro, e falecida há 20 anos, num dia 16 de Março, a meses de completar 70 anos de vida e com tanto ainda para escrever e intervir culturalmente.
Natália está hoje injustamente esquecida, e mais o estaria ainda se não houvesse um grupo de amigos que admiraram e seguiram e leitores, grupo em que me incluo, que a consideram umas das vozes maiores e mais versáteis da literatura portuguesa do século XX.
Muito mais do que grande voz da poesia, Natália Correia foi também uma lúcida ensaísta, uma talentosa dramaturga e uma inspirada ficcionista. Mas foi ainda uma mulher que, defendendo o papel interventivo e emancipado da mulher na sociedade contemporânea, aceitou ser deputada independente nas listas do PPD/PSD, a convite de Francisco Sá Carneiro, seu amigo, que teve nela uma incondicional defensora quando, com rara coragem moral, o líder daquele partido decidiu assumir publicamente a sua relação apaixonada com Snu Abecassis.
Fazem hoje muita falta na política e na cidadania em geral vozes como a de Natália que, colocando-se acima das conveniências e dos circunstancialismos políticos, verberou a mediocridade e o reaccionarismo de alguns deputados que defendiam posições indefensáveis numa democracia evoluída. Quem não se recorda das quadras certeiras e implacáveis com que “presenteou” João Morgado do CDS, a propósito de posições por ele defendidas contra a legalização do aborto, ao proclamar que a sexualidade humana tem como finalidade única a procriação. O seu nome é hoje lembrado porque Natália o fez passar à posteridade, em libelo versejante, e não por qualquer outro contributo digno de nota.
Penso na maioria dos governantes actuais e dou por mim a imaginar o que Natália, nos seus melhores dias, poderia escrever e dizer acerca deles no hemiciclo de São Bento, tendo como pano de fundo o culto de uma austeridade que destrói a nossa economia, aumenta dramaticamente o desemprego e vai hipotecando cada vez mais a nossa soberania.
Mas é preciso ler e redescobrir a Natália da peça “A Pécora”, do ensaio “Somos Todos Hispanos” ou a poeta de “Sonetos Românticos”, um dos grandes livros de poesia publicados nas derradeiras décadas do século XX.
Incómoda, livre, rebelde, histriónica, tantas vezes heterodoxa e provocadora, Natália era uma afincada estudiosa, uma livre pensadora, mas também uma tradutora e uma antologiadora excepcional. O seu génio trouxe-lhe incompreensões e inimizades, porque não transigia, não pactuava, não fazia fretes e porque acirrava a inveja dos despeitados do costume. Estou à vontade para o afirmar, porque não fiz parte do grupo dos seus seguidores incondicionais e estive várias vezes em claro desacordo com ela no plano ideológico, embora nunca tenha deixado de a admirar profundamente no plano intelectual. Também por isso considero urgente a sua redescoberta e revalorização.
Para além disso, Natália, membro da Sociedade Portuguesa de Autores desde 1967 e cooperadora até à data da sua morte, foi uma escritora profissional que se bateu pela defesa dos seus direitos e do papel dos criadores em geral, mas também da sua irrenunciável liberdade de expressão e criação. Por morte de seu marido, o poeta Dórdio Guimarães, a SPA passou a ser detentora dos direitos da sua obra, por decisão testamentária, o que confere à estrutura que representa os autores portugueses uma responsabilidade redobrada sempre que se fala de Natália e dos livros que escreveu e que poderão estar em vias de ser reeditados pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, também como resultado de diligências efectuadas pela instituição que representa a escritora. Em Coimbra acaba de ser criado um prémio de poesia, com periodicidade bianual, que conta já com o apoio da SPA.
Recordar hoje Natália Correia, 90 anos depois de ter nascido e 20 depois de ter partido, é um acto de justiça cultural e cívica que engrandece quem o pratica e nos devolve, intacta, a grandeza de uma obra multifacetada que tem a marca da portugalidade ao seu mais alto nível, que é o da paixão pela pátria, pela sua História e pelos seus valores intemporais. Que Viva Natália, presente e sempre actual, muito para além da morte.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3974 de 29 de Março de 2013

