Semanário Regionalista Independente
Sábado Abril 25th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

É o fim do mundo tal como o conhecemos

Bernardo de Brito e Cunha

EXCLUINDO O REGRESSO de José Sócrates a Portugal (mantendo embora, segundo julgo, a sua nova faceta de “delegado” farmacêutico) e a notícia de que vai fazer um comentário político na RTP1, não se falou noutra coisa no último fim-de-semana que não fosse a crise monetária de Chipre. A exigência da União Europeia de aplicar em Chipre uma taxa sobre os depósitos bancários superiores a 100 mil euros e o encerramento do Banco Popular (local) provocou o pânico entre os depositantes e colocou em perigo o sistema financeiro da ilha.
Há diversos especialistas a referir que este passo não tem precedentes. Como disse o político e empresário russo Mikhail Prokhorov, “a UE, na prática, abriu uma caixa de Pandora ao criar um perigoso precedente na resolução dos problemas de capitalização do sistema bancário nos países problemáticos. Perigoso, antes de mais, por atentar contra o fundamento da civilização ocidental: a inviolabilidade da propriedade privada.”

O PARALELO com a experiência histórica russa tornou-se num lugar-comum: como se sabe, as autoridades soviéticas realizaram muitas vezes, sob diferentes pretextos, reformas de confisco monetário. Um imposto único, na forma que foi inicialmente proposta por Bruxelas, é uma típica expropriação leninista. Também é verdade que existe uma opinião segundo a qual isto se parece mais com a aplicação do slogan bolchevista “Rouba o que foi roubado”: mas mesmo que assim seja, a essência da questão é a mesma. A “expropriação do que foi expropriado” contradiz os valores fundamentais do Ocidente porque toma a mesma forma que a de um assalto vulgar (apesar de um imposto para todos ser atraente pelo vislumbre de uma justiça universal).
Aquilo por que se bateu em Bruxelas o presidente cipriota Nikos Anastasiades (que disse aos membros da troika: “Sugiro uma solução e vocês não aceitam. Sugiro outra e é a mesma coisa. Que mais querem que faça? Que me demita?”) foi exatamente o contrário do que se fez por cá: Anastasiades bateu o pé a uma taxa sobre depósitos inferiores a 100 mil euros e conseguiu-o. Cá cortou-se nos que ganhavam menos e pouparam-se as grandes fortunas. São critérios, naturalmente.

MAS SE DESCERMOS das nuvens à terra, no caso de Chipre teremos de falar sobre a corrosão dos fundamentos da zona do euro. Os peritos vêem o problema principal no enfraquecimento da confiança dos depositantes e dos investidores. O mesmo Prokhorov admite que a expropriação forçada da propriedade privada irá forçosamente provocar uma reação em cadeia: uma fuga dos depósitos por toda a União Europeia, o fim do sistema bancário, o colapso financeiro, a paralisia da indústria e o desemprego massivo. Como resultado, “iremos recordar a crise de 2008 como a idade de ouro do capitalismo”, conclui Prokhorov. Apesar de tudo, a EU já disse que este vai ser o modelo para todos os países que precisem de ser intervencionados…

O EURODEPUTADO português Diogo Feio, do Partido Popular, recordou a propósito os fundamentos sobre os quais assenta a União Europeia: “os princípios do mercado livre, o respeito pela propriedade privada e a liberdade de circulação de capitais não podem ser questionados em caso algum”, considera o eurodeputado. “O desrespeito por esses princípios não corresponde ao caráter livre e democrático da União Europeia, é antes mais característico dos regimes comunistas”.

ESTREOU NA QUINTA-FEIRA o programa “Música Maestro”, apresentado pelo maestro Rui Massena, que já na altura de Guimarães Capital Europeia da Cultura tinha feito alguns apontamentos de rua com muita graça, a que o “Telejornal” deu a seu tempo o devido relevo. Foi um programa muito interessante, que me fez recordar, em muitos aspetos, os que em tempos idos foram feitos por Leonard Bernstein e António Victorino d’Almeida. Massena tem graça e a coisa sai-lhe com (aparente) facilidade e um haircut (como agora, com Chipre, está na moda dizer) a alguns pormenores tornará o programa ainda mais dinâmico. É bom ver a música dita clássica ou séria de regresso à RTP1.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Na última terça-feira, as duas televisões nacionais que mantêm repórteres em Bagdad, a RTP e a SIC, fizeram outra coisa impensável até agora: promoveram o contacto do público com esses jornalistas, através do mesmíssimo videofone. Primeiro a SIC, durante a tarde, depois a RTP já no horário nobre. Como é óbvio, houve perguntas que não se justificavam: mas foi curioso verificar como na RTP as chamadas telefónicas para Carlos Fino também provinham do território do continente, como da Madeira, do Brasil, de França e do Canadá. Paulo Camacho, na SIC, falou na ausência total de concorrência entre os dois canais de televisão: e disse que, pelo contrário, a cooperação entre os portugueses era total. Mais uma vez bonito de ver e de ouvir.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3974 de 29 de Março de 2013

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