Semanário Regionalista Independente
Terça-feira Junho 9th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

“A política não é uma ciência exata, mas uma arte”

Bernardo de Brito e Cunha

QUANDO SE COMEÇOU a falar do regresso de José Sócrates à vida pública, sob a forma de comentador televisivo levantou-se um coro de protestos. E imediatamente me lembrei dos versos de Georges Brassens, mais tarde cantados por Paco Ibañez em castelhano: “Na minha terra, sem pretensão, tenho má reputação.” E tem, de facto. Mas não me parece caso para tanto: se José Sócrates, por muito má reputação que tenha, não tivesse direito à sua liberdade de expressão, como poderia estar eu, aqui, a escrever estas linhas? Tudo, neste caso, me parece exagerado. A começar pelo número de comentadores da facção PSD que tecem, como diria Paulo Bento, “postas de pescada” a granel: esses, ex-dirigentes do partido do Governo, não têm qualquer problema. Já Sócrates, esse bandido, sim. A RTP fez aquilo que me parece normal: entrevistou na outra quarta -feira a sua nova aquisição, que ainda está para se estrear nos comentários. E fizeram-lhe perguntas sobre os tempos do seu Governo, coisa que foi, qual Gato Fedorento, profundamente esmiuçada nos dias seguintes. E, claro, umas eram verdade, outras semi-verdades e duas ou três, falsas. Mas as interessantes também foram ditas: nomeadamente “o presidente da República tirou-me o tapete” e “os cortes de subsídios não estavam no entendimento com a troika”. E esta última, que me diz respeito, interessa-me. Mas a RTP fez outra coisa, e bem: não se limitou a ir buscar José Sócrates, também respeitou o contraditório e abriu a antena a Nuno Morais Sarmento, ex-ministro do PSD. Uma coisa com que as outras televisões não se preocupam…

OUTRA GRANDE QUESTÃO em torno da entrevista de José Sócrates foram as respetivas audiências: mais de um milhão e 700 mil espetadores, o que quer dizer que teve mais audiência do que no tempo em que era primeiro-ministro… É evidente que não sabemos as razões que levaram toda esta gente para a televisão pública: simples curiosidade, saudades do passado, que o presente não tem sido melhor? Deve ter sido uma mistura de tudo isso. Mas, como bem me lembrava um amigo, foi exatamente no canal público que, aqui há uns anos, Salazar foi eleito o maior português de sempre… Ou, tão-somente, ver apenas a habilidade com que Sócrates se move frente às câmaras, daí o título desta crónica, que é da autoria de Bismarck. Mas vá-se lá saber o que faz uma pessoa mudar para este ou aquele canal…

FALANDO NA HOMILIA da celebração do Paixão do Senhor, na Sé de Braga, D. Jorge Ortiga também não poupou a “corrupção judicial” e as “mentiras dos astrólogos” (suponho que aproveitou a boleia de um dos comentadores do PSD, Marcelo Rebelo de Sousa e se referia a Vítor Gaspar…): “Por que é que nós consentimos que tantos seres humanos continuem a ser vítimas da miséria social, da violência doméstica, da escravatura laboral, do abandono familiar, do legalismo da morte, da corrupção judicial, das mortes inocentes na estrada, das mentiras dos astrólogos, do desemprego, de uma classe política incompetente e do monopólio dos bancos?”
D. Jorge Ortiga manifestou-se preocupado com o número de suicídios “que aumentam diariamente” em Espanha, por causa da penhora de casas, e advertiu que, “em breve, este drama poderá chegar” também a Portugal: parece que D. Jorge anda mal informado – é que os suicídios já chegaram ao país…

NA TERÇA-FEIRA passada assisti à gala do aniversário da RTP. A certa altura passaram fotos e nomes das pessoas que mais marcaram a RTP ao longo dos seus 46 anos. Entre eles, por exemplo, estavam Pedro Homem de Melo, Sousa Veloso, Raul Solnado, Fialho Gouveia, Vasco Santana, Artur Agostinho, e muitos outros. Fiquei surpreendido por o nome do Carlos Cruz não fazer parte daquela lista. Teria sido uma alegria, uma semana antes de se entregar na prisão da Carregueira.

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Quando esta crónica for publicada, já terá chegado ao fim a penosa telenovela “Esperança”, que teve os seus últimos espasmos centrados num facto peculiar e certamente não muito bem visto pelo Vaticano: o da queda de uma santa. A santa em questão era Maria, como é fácil de perceber, mas a história não está bem contada, uma vez que a santa em questão não caiu – foi empurrada pela malévola, pérfida e tenebrosa Camille. Bonita, mas com esses adjectivos todos atrás. A novela não nos deixa saudades, como de resto já a sua primeira edição, “Terra Nostra”, se revelara uma estucha de dimensões demasiado grandes para a nossa paciência. E a sua sequela, que nem começou mal, na sua fase italiana, assim que chegou ao Brasil começou a dar sinais de si. E daí para a frente foi um ver se te avias de engonhar, de pastilha elástica, do português apaixonado pela outra, e a outra que tanto não o quer como já quer outra vez, do advogado e da prostituta que afinal era tão boazinha, meu Deus!, logo ir-me morrer assim, com uma doença daquelas!»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3975 de 5 abril de 2013

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