Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

A insustentável leveza do humor

Bernardo de Brito e Cunha

BEM SEI que aqui há coisa de um mês prometi, quase solenemente, que não falaria aqui sobre o Big Brother VIP com que a TVI pretendia alegrar as nossas noites. Prometi e tenciono cumprir – mas com reservas. É que, por mais que lhe tente fugir, essa é uma tarefa extremamente complicada e por uma razão simples: não há programa da TVI por que eu passe que não faça uma referência ao assunto. Pois ele podem ser imagens da véspera, pode ser o candidato que abandonou a casa, ele pode ser o mínimo pretexto – categoria onde também cabem – ah cabe que eu vi! – os assim designados “peúgos” de Zézé Camarinha. E é um canal que se debruça sobre esse problema candente que são os “peúgos” deste ou daquele, que não tem pudor de anunciar aos quatro ventos que há qualquer coisa como 80 meses e mais um poucochinho que lidera as audiências. Também isso não é coisa que se saiba de ciência segura, pois as audiências são coisas que se prestam a variadas leituras.

OU COMO O DIRIA o escritor e pensador espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio (até para que esta coluna tenha, de vez em quando, uma vertente cultural a que foge as mais das vezes), “En este mundo traidor, nada es verdad ni mentira, todo es según el color del cristal con que se mira”. E parece que até o próprio Ramón não merece o crédito da frase, pois foi buscar alguns fragmentos a outros literatos ilustres, como Jorge Manrique (1440-1479), William Shakespeare (1564-1616) e Pedro Calderón de la Barca (1600-1681). A frase tenta desarticular qualquer posição religiosa, filosófica, política, económica… ou mesmo ideológica, que tenha pretensão de verdade universal. Porque todos os seres humanos estão irreversivelmente manietados pela subjectividade e esta circunstância torna-nos falíveis em qualquer observação. Todo o critério, toda a conclusão, todo o veredicto está sempre “colorido”, já que ele fala na cor, por essa subjectividade com que vivemos, com que observamos, com que pensamos. E é por isso que me irrita esta jactância da TVI, este pretenso orgulho de ter público à conta de um “pão e circo” dos nossos tempos. Porque sabem aqueles que acompanham esta coisa das audiências, que a novela “Dancin’ Days” ganha todas as noites. E até nas chamadas noites de nomeações ganha ao próprio Big Brother…

NÃO TENHO PERDIDO o “Governo Sombra”, que a TVI24 – neste canal de notícias e actualidade não entra o Big Brother… exibe ao sábado à noite. Foi, como se sabe, um programa que começou na rádio, na TSF, para ser mais exato e que recentemente se estendeu à televisão, mantendo uma presença constante na rádio. Num momento em que a política nacional está ao rubro, em que a crise económica não dá sinais de esperança aos portugueses, em que muitos reclamam mais verdade aos políticos, há um “governo” que pode fazer alguma diferença… Um governo português, pequeno, eficaz, livre: um governo sombra! Se era um dos melhores programas da rádio portuguesa, chegou há pouco também à televisão. Todos os sábados, às 23h00 e durante uma hora, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, João Miguel Tavares e Carlos Vaz Marques estão na TVI24, para uma análise acutilante do país e das medidas tomadas pelo governo de Portugal. É, também este, um governo de coligação, que tem um membro declaradamente de direita, um outro que é um liberal e, finalmente, um comunista convicto, embora não praticante. Carlos Vaz Marques é o moderador que sabe levar a água ao seu moinho e todas as semanas leva a lição bem estudada. É um governo com grande sentido de humor e cujos decretos dariam resultados bem melhores do que a austeridade em que vivemos. Estão em desacordo, como Passos Coelho e Portas? Naturalmente: mas até isso lhes dá maior credibilidade. A não perder: até porque à hora a que o programa é transmitido, nos outros canais não está a dar nada de tão urgente…

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«A história de “Gente Feliz com Lágrimas” é aquilo que se sabe – um luminoso laço entre açorianidade, portugalidade e universalidade ou, como diz a certa altura Manuel Guerreiro, a personagem de Ruy de Carvalho, “vocês, açorianos, são uma espécie de maçonaria sentimental” –, a realização de Zeca Medeiros é magnífica (genial?), o trabalho dos actores e actrizes (quem diria que tantos o eram?) é duma naturalidade e perfeição que chegamos a convencer-nos de que tudo aquilo “é” a sério (e não apenas “foi”), as personagens são-nos tão próximas que quase arriscamos a identificá-las na rua, a fotografia (tanto a do preto e branco das recordações como a cores do tempo presente) é de uma beleza comovente e perturbadora… Serão, no total um pouco mais de três horas de momentos absolutamente mágicos.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3980 de 10 de Maio de 2013

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