José Jorge Letria
Antropólogo famoso, Marc Augé, nascido em 1935 em Poitiers, publicou recentemente um ensaio, já traduzido em Espanha, com o título “Futuro”, no qual se detém na análise da forma como as grandes utopias humanas têm fracassado, desde o comunismo até à utopia ultraliberal que ainda continua a causar os danos conhecidos e que teve em teóricos como Milton Friedman ou em estadistas como Margaret Thatcher os seus principais mentores.
Refere, por outro lado, o modo como a economia e a tecnologia combinadas, num mundo globalizado, acabaram por gerar incerteza e medo em larga escala, dado que nunca como hoje faltaram respostas mesmo para as perguntas mais elementares.
A questão está em saber se o Homem é capaz de viver sem utopias e se as utopias fracassadas podem ser substituídas por outras, sendo sabido que todas elas são meras criações humanas, logo tolhidas pela “defeito” da imperfeição.
Segundo Augé, o ideal seria não haver utopias e podermos operar com a sociedade como se opera com as ciências exactas, em processo de pesquisa, ensaiando hipóteses até se encontrarem as soluções credíveis e duráveis. Felizmente ou infelizmente, com as comunidades humanas o processo tem de ser diferente, embora governos que, como o português, só têm acumulado erros, pareçam querem continuar a usar um modelo experimental que só penaliza e empobrece os países e os povos. Acerca daquele que nos coube em amarga sorte já pouca resta para ser dito, devendo somente acentuar-se a urgência de que sejam criadas condições para que funcione a alternância democrática e surja uma alternativa sufragada pelo eleitorado, já arrependido, por certo, de ter ajudado a construir a maioria que ainda nos desgoverna.
Mas regressemos a Marc Augé, que inclui na lista dos fracassos a própria democracia representativa, hoje em clara crise um pouco por todo o mundo, embora, como lembrava Churchill, seja o sistema com mais defeitos para o qual, no entanto, ainda não foi encontrada uma alternativa sustentável e justa.
Depois de rebater a ideia de Francis Fukuyama, para quem o fim da História teria sido atingido, Augé afirma que, apesar de uma guerra como as de dimensão mundial que ensombraram e mergulharam em tragédia o século XX, existem outras formas de violência que não podem ser subestimadas, entre as quais se deverá incluir o terrorismo de matriz religiosa.
Sobre a Internet, recorda o conhecido antropólogo, que ela pouco significa se não se fizer um esforço de educação que a enquadre convenientemente. As redes sociais, defende o cientista, podem ser um meio útil para comunicar com os outros, mas que podem contribuir para que se confunda a realidade com um mundo virtual em que é possível dizer-se que se tem “milhares de amigos”, sem que tal corresponda a um projecto cívico ou pedagógico que, muitas vezes, serve muito mais o narcisismo exibicionista ou as finalidades do mercado do que propriamente a formação, a cidadania e a dignificação da vida colectiva.
Eis uma reflexão que merece ser aprofundada e partilhada, num tempo em que a palavra “futuro” é cada vez mais geradora de apreensões e dúvidas, neste mundo global em que as dúvidas se sobrepõem às certezas e em que ninguém que tenha um mínimo de bom senso e sentido da realidade se atreverá encarar sem inquietação o amanhã dos seus filhos e netos.
Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3980 de 10 de Maio de 2013

