Semanário Regionalista Independente
Sexta-feira Abril 17th 2026

“BBC – As Crónicas de TV”

Ligo o televisor e zás: começam os disparates!

Bernardo de Brito e Cunha

ASSISTO A COISAS notáveis, assim que ligo o televisor. Ainda sábado à noite tive oportunidade de ouvir o douto Marques Mendes dizer, com um descaramento inaudito, à já não tão jovem Maria João Ruela, na SIC, esta coisa espantosa: “O maior adversário do governo não é a oposição, mas sim o Tribunal Constitucional.” Acontece no entanto que Marques Mendes não é um qualquer e, portanto, não pode ser considerado como tendo proferido um erro inocente. E com esta pretensa ignorância dessa minudência que é a separação de poderes, o comentador da SIC estava apenas a deitar achas para a fogueira e, indo um passo mais além, ele estava, no fundo, a alinhar com a figura criada por alguns órgãos de comunicação social (quem sabe mesmo se com aqueles jornalistas que insistem em dizer “à última da hora”) e que continuam a falar “no buraco criado pelo Tribunal Constitucional”. Quando este órgão fez aquilo para que está mandatado e considerou inconstitucionais alguns artigos do Orçamento de Estado, não estava a “criar um buraco no orçamento”, como muitos pretendem: estava tão-só a descobrir um buraco onde o governo não o deveria ter colocado. Até porque, conforme anunciava o jornal “i” de sexta-feira passada, “o Orçamento do Estado para 2013 já tinha um buraco de 4.395 milhões de euros mesmo antes do chumbo do Tribunal Constitucional a quatro normas do Orçamento”. O que o Dr. Marques se esqueceu de acrescentar, como bom PSD que se supõe que ainda seja, é que espera sinceramente que o governo desta vez faça as coisas direitinhas – para que o Tribunal Constitucional não venha a encontrar, no orçamento, erros e inconstitucionalidades pela terceira vez. Consecutiva.

ACHEI NOTÁVEL, também, a entrevista de Henrique Cymerman ao presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Não pelo ar submisso e aquiescente com que Cymerman escutava, aparentemente deliciado, o presidente, mas por outra razão, mais gráfica. Que me lembre, em todos os anos a que me dedico a ver televisão, nunca assisti a uma coisa como aquela: as legendas em oráculo com as respostas do presidente eram tantas e a sucederem-se tão rapidamente, que muito pouco do que Eduardo dos Santos disse não terá aparecido escrito, em baixo. Deve ter sido a mais fiel transcrição de sempre da televisão portuguesa. E logo na SIC: o Dr. Balsemão andará a pensar em alargar os seus investidores? E, se assim for, não teria sido melhor entrevistar a filha do presidente?
Tenho de confessar que tinha uma engatilhada… Tencionava escrever que entrevistar o presidente de Angola era uma coisa fácil, complicado seria fazer com que o nosso presidente falasse! Fui tramado pela RTP, que o entrevistou no Dia de Portugal. Quando próprio serviço público insiste em nos dar cabo das larachas, não há nada a fazer…

JÁ QUE FALO nisso, vamos lá às cerimónias do Dia de Portugal. Confesso, com um baraço ao pescoço e os filhos pela mão, que só assisti àquela estucha anual porque fui informado que Passos Coelho e Cavaco Silva tinham sido apupados à chegada – e corri a mudar de canal, porque se vai haver porrada, eu quero ver. Cheguei tarde! Mas não o suficiente… Não consegui escapar à parte do discurso de Cavaco Silva em que este nos informou que a “agricultura estava florescente”, apesar dos seus esforços para a liquidar no passado, quando era primeiro-ministro. Nestas alturas é que ele se devia remeter ao seu proverbial silêncio: mas não, caramba! É de uma falta de timing absolutamente sem paralelo.
E se o presidente diz coisas destas, quem somos nós para atirar pedras a Luísa Bastos, a jovem da RTP enviada em dia feriado a Elvas para comentar as cerimónias? Às tantas, já na atribuição das medalhas e outras comendas, Luísa foi, com base nalgum papel que tinha à sua frente, dizendo quem era e o que fizera o próximo recipiente. Até que chegou a vez de Fernando Ruas, de quem ela disse: “Fernando Ruas, presidente da Câmara de Viseu que vai abandonar o cargo este ano, por força da lei, deixa centenas de rotundas.” Mais palavras para quê?

HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«Assisto, com surpresa natural, digo eu, a mais uma sessão de ficar boquiaberto. Trata-se do programa “3.ª em Grande”, apresentado por José Figueiras, que se viu de repente metido nestes assados, todas as semanas, embora alternadamente em programas diferentes. Digo-vos mesmo mais: assisti a metade e desisti. É um daqueles programas que recria situações ditas da vida real, com facadas, amores traídos, etc. Tudo. Aquelas coisas que eu pensava que só se viam no jornal “O Crime” – ou que já não se vêem nem nesse jornal – agora estão na televisão, com encenações teatrais baratas e apresentadas logo a seguir às novelas da noite. Não sei que deu à SIC, nesta sua nova fase de relacionamento com Ediberto Lima, para pôr uma coisa destas no ar. Isto não é para ver: é para esquecer.»
(Este bloco respeita a grafia em uso no ano em que foi escrito.)

Crónica publicada no Jornal de Sintra, ed. 3985 de 14-6-2013

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