O grego Antonis Samaras deve estar louco…
Bernardo de Brito e Cunha
ESCREVI A CRÓNICA da semana passada um pouco mais cedo do que o habitual, o que fez com que pensasse que a ameaça do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, não passasse mesmo de uma ameaça. Mas à medida que as horas foram passando tudo se concretizou. Até com excesso de zelo do ministro encarregado dos media, Stournaras, que carregou no botão com 44 minutos de antecedência. Vamos aos factos. Já se sabia que não havia muito a esperar do Governo grego liderado por Antonis Samaras, secundado pelo partido socialista PASOK e pela Esquerda Democrática, mas ninguém alguma vez suporia que tivesse a coragem, o descaramento e a falta de todos os princípios democráticos e que anunciasse, ao final do dia 11 de Junho, o fecho da radiotelevisão pública ERT para a meia-noite desse mesmo dia. O que, na realidade, não veio a acontecer, uma vez que o ministro Stournaras lhe cortou o sinal às 23h16 horas, tudo horas de Atenas.
COMO É EVIDENTE os protestos não se fizeram esperar. Jornalistas e técnicos ocupam, ainda hoje, a estação, transmitindo via Internet; a população manifesta-se em Atenas frente ao edifício da ERT e em todas as cidades gregas; os jornalistas de todos os jornais, solidários, fizeram greve, no que foram secundados por greves gerais subsequentes; a EBU, mais vulgarmente designada por Eurovisão, já pediu contas a Atenas, até porque a Grécia é um dos seus países fundadores, e porque esta é a primeira vez que um serviço público de radiotelevisão é cortado na Europa. A ERT tem mais de 75 anos de existência e só numa ocasião deixou de transmitir: quando na década de 40 foi invadida pelos alemães… Como é óbvio, não a ERT, visto que a televisão ainda não existia: mas a empresa foi criada em 1938 como um serviço de rádio da cidade de Atenas, sendo que na época a emissora era conhecida como ER1. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, a radiodifusão foi interrompida durante a ocupação nazi da Grécia.
TUDO INDICA que a decisão de Samaras parece ter sido tomada durante uma visita da troika, na segunda-feira anterior, em que terá sido perguntado ao PM grego onde estavam os 2500 despedimentos que deveriam ter sido feitos em Maio. Antonis Samaras olhou em volta, deu com a ERT e os seus 2656 trabalhadores e nem terá hesitado: tudo despedido e estação fechada, para voltar a abrir um dia, reformulada… Ao fechar a ERT, o governo grego fechou cinco canais de televisão e três de rádio, bem como a Orquestra Nacional da ERT e o respectivo Coro. Por arrasto, ao cortar-lhe o sinal, terminou também com as transmissões da BBC, da TV5, da Deutsche Weller e até do equivalente ao nosso Canal Parlamento… Com mais um pequenino pormenor: estação fechada, logo nada de informação, a não ser nas televisões privadas. Foi ou não juntar, digamo-lo assim, o útil ao agradável?
NÃO TÊM FALTADO apoios à ERT, e dos mais diversos: desde o KKE, o partido comunista grego, que cedeu o seu próprio canal de televisão, o “902TV”, para que a emissão via Internet pudesse ser retransmitida – e não é que o KKE verificou que o sinal caía 22 segundos depois de iniciado? –, bem como todos os membros da Eurovisão cederam frequências para retransmitir o sinal da estação pública grega, via satélite, incluindo a RTP. E, não tenho dúvidas de que Samaras terá de recuar: até porque o juiz Menoudakos ordenou no dia 17 que o sinal da ERT voltasse a ser posto no ar. E, quem sabe, talvez isto ainda sirva para desmembrar a coligação governamental: os dois partidos secundários não ficaram nada contentes com a atitude do líder da Nova Democracia e, na Grécia, fala-se já na data das próximas eleições: Setembro próximo…
ESTA “NOVA” DEMOCRACIA não é nova nem é democracia: por isso muita gente na Grécia se recordou, de repente, da Junta dos Coronéis de finais da década de 60, cujos decretos começavam sempre pelas palavras “Nós queremos e decidimos”… Até porque, à hora a que escrevo, Antonis Samaras ainda não cumpriu a determinação de Menoudakos. Faz lembrar umas deliberações do nosso Tribunal Constitucional…
HÁ DEZ ANOS ESCREVIA
«No “Telejornal” de terça-feira surge, de repente, uma notícia que me deixa de boca aberta. É que a força da GNR que em breve partirá para uma missão no Iraque, não tem blindados. Ou melhor: lá ter os blindados tem, mas o problema é que estes não estão capazes de funcionar no Iraque, uma vez que não têm ar condicionado, coisa que por aquelas paragens faz alguma falta. Mas os responsáveis das respectivas pastas, nomeadamente da Administração Interna, garante que não há problema: a GNR vai pedir ajuda a Itália para essa missão no Iraque, sob a forma de seis blindados emprestados, apoio logístico e até comida. Sem os italianos a força portuguesa não tem meios. Um repórter ainda arriscou a pergunta “E se os italianos não emprestarem?”, ao que o ministro respondeu: “Nesse caso compramos à França.” Pensei que o país estava de tanga: devo ter sonhado.»
(Esta crónica, por desejo do seu autor, não respeita o novo Acordo Ortográfico.)
Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3986 de 21 de Junho de 2013

