Semanário Regionalista Independente
Quinta-feira Abril 16th 2026

A HORA E A VEZ DO CAVAQUINHO PORTUGUÊS

José Jorge Letria

Confirma-se a candidatura do cavaquinho a património mundial da humanidade. Trata-se de um projecto há muito imaginado e alimentado por um notável multi-instrumentista e compositor português chamado Júlio Pereira, que em 1981 gravou um LP intitulado “Cavaquinho”, depressa transformado num dos maiores êxitos de sempre da música portuguesa.
O cavaquinho nasceu em Portugal, na região de Braga, e daí partiu, com os navegadores portugueses primeiro para a Madeira, depois para as ilhas de Cabo Verde e em seguida para o Brasil, chegando mesmo ao Havai, onde passou a ser designado por “Ukelele”. Foi com esse nome que se tornou um instrumento tão universal como o cavaquinho brasileiro, essencial na produção de sonoridades que definem a identidade da música brasileira.
Ao contrário da guitarra portuguesa que teve origem em Inglaterra, tornando-se instrumento essencial para a emancipação do fado, o cavaquinho nasceu em Portugal e transformou-se no mais universal dos instrumentos populares portugueses. Chegou agora a altura de, através da UNESCO, lhe garantir um reconhecimento que seja também o da nossa cultura popular que as navegações fizeram chegar a outros povos e continentes.
Ao contrário da do fado, esta candidatura terá, tanto quanto sabemos, um carácter transcontinental, já que pertencem a diferentes continentes os povos que adoptaram o cavaquinho e a sua sonoridade aguda e expressiva, seja como instrumento solista, seja como instrumento de acompanhamento.
Este pequeno instrumento de quatro cordas cuja afinação sofreu variantes ao longo dos séculos e de muitas viagens, também como resultado do contacto com o acordeão, pode muito bem ser visto e estimado como um verdadeiro símbolo da nossa universalidade e da nossa capacidade de sermos alegres, ao contrário do que a estética fadista frequentemente faz crer, por estar associada a um tipo de melancolia que não casa bem a exuberância festiva do cavaquinho.
Tentar transformar o cavaquinho num instrumento símbolo de uma universalidade criativa e viajante é abrir portas para uma ainda maior e mais diversificada internacionalização da música portuguesa que o actual governo comprometeu ao liquidar o projecto do Gabinete de Exportação da Música Portuguesa, consagrado em protocolo celebrado pelo anterior executivo e que teve como subscritores a Sociedade Portuguesa de Autores e a GDA, em representação dos direitos dos artistas.
A candidatura do cavaquinho deverá ser vista como um projecto com um futuro credível que congregue os apoios do mundo académico, dos artistas e dos “media”, para além do sempre desejável de instituições que tenham condições materiais para o tornar sustentável. Se os portugueses que levaram o cavaquinho por esse mundo fora nunca deixaram de ser capazes de sonhar, que mantenham agora acesa a chama deste sonho-projecto que pode ajudar a afastar do horizonte as sempre sombrias e pesadas nuvens de uma crise que é, além de financeira, de valores, de confiança e de esperança. Com a sonoridade vibrante do cavaquinho, não haverá esperança que esmoreça, com todas as vantagens daí decorrentes, incluindo as de natureza económica que já se tornaram mais do que evidentes para os construtores de cavaquinhos.
É preciso apoiar Júlio Pereira neste projecto que é nacional e muito mais do que isso, sendo até possível que venha a merecer a decisiva simpatia do Presidente Obama, nascido no Havai, onde o ukelele-cavaquinho é instrumento de culto e símbolo merecido da música daquela região insular do Pacífico. Mãos à obra, que é como quem diz, ao cavaquinho, que nada tem a ver com nomes do universo da política bem menos expressivos e mobilizadores.

Crónica publicada no Jornal de Sintra, edição n.º 3986 de 21 de Junho de 2013.

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